Dizes-me:
nunca há mar nos teus poemas
Pois não. O mar que conheço é baço
e o que nunca vi é estranho
insondável como poço, afoga-nos num lento abraço
Dizes-me depois:
nunca há mar, mas há aldeias
Pois há. E há mulheres, há sempre mulheres.
Umas a chegar, outras a partir.
Gosto de encontros, gosto de despedidas - Há sempre mulheres,
(algumas despidas
Não me atrai as ondas
o modo magnético de nos prenderem o olhar.
Prefiro-o à solta pelas aldeias
é que tudo que há nelas me dá ideias
mesmo um triste poço, mesmo um monte baço
João Habitualmente, in "Um dia tudo isto e será meu (uma antologia)", Porto Editora, 2019.
sábado, 21 de dezembro de 2019
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
sábado, 14 de dezembro de 2019
Busto e Costas
Sei que gostas
de vestidos sem costas
e de grandes decotes nas blusas
sei que os vestes e usas
Toda essa conspiração
de tecidos que te despem
se destina à minha derrota:
vergas-me ao teu busto ardente
aniquilado pelo decote que te rasga o peito
Sei que gostas
de blusas sem ombros
e de vestidos sem costas
sei que os vestes e mostras
e sei que usas
finas rendas que te desvendam o busto
e me reduzem a escombros
si que te olho
e me assusto:
gosto de ti
com vestidos sem costas
gosto eu e sei que gostas
mas gosto mormente de blusas sem alças
e de vestidos sem frente
João Habitualmente, in "Um dia tudo isto será meu (uma antologia)", Porto Editora, 2019.
de vestidos sem costas
e de grandes decotes nas blusas
sei que os vestes e usas
Toda essa conspiração
de tecidos que te despem
se destina à minha derrota:
vergas-me ao teu busto ardente
aniquilado pelo decote que te rasga o peito
Sei que gostas
de blusas sem ombros
e de vestidos sem costas
sei que os vestes e mostras
e sei que usas
finas rendas que te desvendam o busto
e me reduzem a escombros
si que te olho
e me assusto:
gosto de ti
com vestidos sem costas
gosto eu e sei que gostas
mas gosto mormente de blusas sem alças
e de vestidos sem frente
João Habitualmente, in "Um dia tudo isto será meu (uma antologia)", Porto Editora, 2019.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
Missiva Natalícia para Janeiro Alves
Ilhas Atlânticas, dia 9 de Dezembro de 2019
Caro Janeiro Alves,
Reestabeleço
contacto com o amigo Janeiro, nesta tarde outonal, na esperança de descobri-lo moço
e ambicioso. Sim, é verdade, a sua última missiva tresandava a desencanto e
abandono. Inesperado, para não dizer surreal, este retorno às raízes do amigo Janeiro.
Soa a ranço, para não dizer nostálgico, este professar dum adeus à antiga capital do
império para refugiar-se no pinhal rodeado de vegetais e salchichas. Isso só
pode simbolizar rendição à gentrificação, melhor, cedência ao “modus operandi turisticus” a que muitos
dos nossos concidadãos foram submetidos.
Aproveito,
assim, para comunicar-lhe que me tornei economicamente viável, já que acabei de
participar num encontro literário com a preleção “E Rimbaud…gostava de Ramboia?”, com a assistência a rejubilar com
tamanha agudeza e assertividade, não podendo deixar de soltar uma lágrima
aquando da ovação de pé durante cerca de onze minutos. Nesta minha magnífica
palestra não me esqueci de exaltar a paciência dos editores e livreiros que,
ainda assim, continuam a convidar-me para estar presente nestes eventos de
grande gabarito.
Desta
feita, volto a referir que as suas mais recentes missivas revelam um Janeiro
Alves cada vez mais eremita e misantropo. Por isso, não sei se irei aceitar o
seu convite já que tenho receio de me distrair com o que terão para dizer
figurões e personagens como Victor Klaus, Alberto Ai, Andar Carrasco, Fausto,
Giorgio Delle Mare ou, imagine, soube da presença, este Natal, do curassário, Nikos Falácia
Cautela, que me afiançou estar ansioso por degustar as iguarias e néctares dos
deuses da sua mesa natalícia. Desconfio que serão muitos os artistas presentes
mas, confesso-lhe, que o Movimento Alarvista está perdido, descamba a toda hora
com tanta opacidade e nulidade criativa. A colocação de ananases em telas
douradas não é bastante para renovar a arte hodierna.
Assim,
despeço-me, já que estou atrasado e os correios estão a abarrotar de gente
neste período. Aguardo, por isso, novidades suas apenas em Fevereiro…ou será
que terei alguma surpresa pelo caminho?
Com
a estima mais do que devida,
Doutor Mara
sexta-feira, 6 de dezembro de 2019
Cinema Trindade, Porto. (Até dia 11-16h00 e 18h00)
“Aqui
salienta-se a estreia, esta semana, de “Hálito Azul” de Rodrigo Areias. O cineasta
e produtor de Guimarães partiu para os Açores e centrou-se em Ribeira Quente,
povoação do sudeste de São Miguel. Areias faz um retrato abrangente daquela
aldeia piscatória, usando como mote, ou contraponto, “Os Pescadores”, de Raul
Brandão, texto que está a ser encenado, de forma experimental, pelo professor
da escola local, com habitantes da aldeia. O filme destaca-se, em primeiro
lugar, pela magnífica qualidade fotográfica, a cargo de Jorge Quintela, um dos
mais talentosos diretores de fotografia da nova geração. Há uma riqueza tonal e
de enquadramentos, que inclui filmagens em alto-mar e até sub-aquáticas. Depois,
vale pelo sentido de proximidade. O realizador consegue dar-nos uma sensação de
intimidade com aquelas pessoas, mais própria da ficção, como se a conhecesse
desde sempre. Por fim, há um lado transgressor, experimental, de fronteira do
género, que resulta muito bem, sobretudo através da força da interpretação de
Zeca Medeiros. Um belíssimo documentário.”
Manuel
Halpern, Revista Visão, 28 de Novembro de 2019
terça-feira, 3 de dezembro de 2019
Ladrões de Bicicletas
“Tinha curiosidade em saber o que fazem os ladrões, como passam os dias
quando não estão a roubar. Passam-nos talvez a estudar, instruindo-se uns aos
outros, entregando-se com paixão, com um zelo infinito, aos golpes que planeiam,
interessando-se, nas tabernas, pelas proezas realizadas pelos seus parceiros,
tendo ciúmes uns dos outros, como nós, os poetas, os artistas, que não fazemos
outra coisa senão criticarmo-nos e atacarmo-nos uns aos outros, para grande
divertimento – e para edificação – do público."
Luigi Bartolini, Ladri di
Biciclete, in “De Bicicleta, Antologia de Textos, Relógio D´Água, 2019.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2019
Ontem, escrito numa parede da cidade
-Para que serve a Filosofia?
-Serve para termos uma vida mais elaborada.
-Serve para termos uma vida mais elaborada.
sábado, 30 de novembro de 2019
sexta-feira, 29 de novembro de 2019
Das Bicicletas
"Enquanto
discípulo da energia respiratória, o ciclismo relaciona-se directamente com
tudo o que existe em nós de verdadeiramente espiritual e espacial. Exigindo um
equilíbrio físico e psíquico da concentração, a actividade motora repetitiva,
contínua e profunda, funciona como uma equivalência física matizada do
equilíbrio psíquico, da concentração, da harmonia e do ritmo de que falam
inúmeros sistemas religiosos e filosóficos. Os mais antigos e os mais venerados
destes sistemas pressupõe sempre que não se pode agir sobre o espírito sem se
agir sobre o corpo.
Em
resumo, a bicicleta pode representar, na longa história dos artefactos humanos,
uma dos mais raros exemplos de uma interacção totalmente benéfica e
ecologicamente irrepreensível entre tecnologia e arte, entre matéria e
espírito. Se, como diz William Blake, a energia é uma fascinação perpétua,
então a bicicleta é uma energia. Porque o facto de andarmos de maneira
disciplinada numa bicicleta, que é leve e que tem várias velocidades, pode ser
psicotrópico, pode mudar o nosso espírito e o nosso coração. Uma corrida
prolongada e concentrada tem efeitos no modo de focalizarmos a percepção de
definirmos os contornos, as cores e os sons do mundo físico. Andar de bicicleta
é alargar e intensificar o nosso campo
visual. Esta espantosa invenção tem, de uma maneira muito simples, o poder de
mudar a natureza da nossa relação com o mundo."
Peter Cummings, extraído de Bicycle
Consciousness; poems and prose, antologia de textos, Relógio D´Água,2019.
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