quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Pão

Há pessoas que amam
Com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
Na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
E pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.

Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Quasi Edições, 2005

Diário

“O importante é sempre isto: concentração. Concentração: etimologicamente – com um centro. Afastar  da luz excessiva mas sem movimentos violentos, sem grandes frases, sem altifalante.
Para se escrever é necessário um solo firme e movimentos mínimos. Os micro-movimentos da mão do próprio acto de escrever devem ser resultado das também subtis mudanças da posição dos pés, e ainda da calma voz e das calmas palavras.
         É necessário silêncio ou um ruído base fixo que não se excite minimamente com as constantes excitações do mundo(…)”

Gonçalo M. Tavares in Jornal de Letras, 19 de Dezembro de 2017

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

3xKaurismäki

         

             Agora que o filme "O Outro Lado da Esperança" se encontra disponível nas salas é possível ver ou rever em DVD estas três películas do finlandês -"Contratei um Assassino"(1990), "A Vida de Boémia" (1992) e "Le Havre" (2011), todos eles contidos na caixa da Midas. Mergulhe-se neste cinema nostálgico, na sua estética lúgrubre composta de melancolia e esperança. No visionamento de "Vida de Boémia" sobressai a amizade, em "Contratei um Assassino", o amor, e em "Le Havre" sobressaem os dois em conjunto, ainda a solidariedade. 
            Aki Kaurismäki vive entre a Helsínquia, Finlândia, e Monção, em Portugal. São muitos os que começaram a ver filmes os seus filmes nos cineclubes e certamente se lembrarão das reacções a esta obstinada e resistente cinematografia: estranheza e  perplexidade. Tantos anos depois as invectivas à particularidade e exceção mantém-se e há por isso que continuar  a exercer o salutar direito de ver e reflectir!

sábado, 6 de janeiro de 2018

Da Estrutura Social

         “A estrutura social é real e tem fortes consequências, especialmente visíveis quando são violadas. Exatamente como numa cidade, segue-se geralmente os passeios, torneia-se os edifícios ou entra-se neles. A vida é governada por estruturas externas, responsáveis por constrangimentos e possibilidades, sejam elas físicas e sociais. Os comportamentos individuais não podem ser compreendidos sem ter em conta as estruturas sociais. Esta é a razão pela qual estrutura social é real e autónoma.”

Thomas Brante, Consequências do Realismo na Construção da Teoria Sociológica. 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Mora na Filosofia de Caetano Veloso

Eu vou lhe dar a decisão
Botei na balança e você não pesou
Botei na peneira e você não passou
Mora na filosofia pra quê rimar amor e dor
Mora na filosofia pra quê rimar amor e dor

Se seu corpo ficasse marcado
Por lábios ou mãos carinhosas
Eu saberia ora, vai mulher
A quantos você pertencia
Não vou me preocupar em ver
Seu caso não é de ver pra crer

Tá na cara!

domingo, 31 de dezembro de 2017

Um bom ano de 2018!

Fotografia de André Almeida

Cineclube Octopus: o Quadrado a Fechar 2017!

De volta ao norte, à cidade atlântica de seu nome Póvoa de Varzim, hoje, sossegada, longe das catervas de gente em passeio dito alegre, afastada desse estio com praias repletas de gente em veraneio, a paisagem agora parece outra. É uma cidade líquida, com chuva, frio e uma calmaria interior que se instaura. Por isso há passagem pelo renovado Cine Teatro Garrett para espreitar a programação do Cineclube local pertencente ao “Octopus – Grupo de Investigação Científica e Animação Cultural”, que com este ano novo que se anuncia celebrará 40 anos da sua actividade ininterrupta, percorridos por diferentes gerações que souberam prestar serviço público na divulgação da ciência e das artes que mais gostavam. E, para quem por aqui andou nos idos anos 90 do século passado, sente nisso uma enorme admiração, o orgulho de já lhe ter pertencido e, entretanto, reparar que pouco ou nada mudou neste espírito subjacente à sua acção. A isso acrescente-se uma programação cuidada e actual na escolha dos filmes e ainda um espírito cineclubista digno desse nome. Basta ver a lista de filmes do mês de Dezembro, que começou logo com “A Fábrica do Nada”, de Pedro Pinho, uma película portuguesa galardoada em muitos festivais por onde tem passado, seguiu-se a longa-metragem dos irmãos Safdie “Good Time” (Quem ainda se lembra de “Vão-me Buscar Alecrim”?), depois veio “O Outro Lado da Esperança”, do finlandês Aki Kaurismäki, e, por fim, o vencedor da edição deste ano do Festival de Cannes – “O Quadrado”, de Ruben Östlund. Este último com a sala praticamente cheia, caucionada pela qualidade de uma projecção cinematográfica irrepreensível.
Relativamente à premiada obra de Ruben Östlund, apelidada com o curioso título de “O Quadrado”, podemos concluir que se trata de um filme deveras instigante, dilemático, e, porque não dizê-lo, inteiramente hodierno. Logo para começar, vê-se que é um filme atento e "observador" da arte dita contemporânea e da influência social que gira em torno do mercado da arte e dos seus fiéis seguidores. A trama gira, portanto, em torno de um curador bem sucedido que no decorrer da preparação de uma exposição se vê espoliado da carteira, telemóvel e botões dos punhos do avó à saída do metro. Este acontecimento aparentemente perturbante irá funcionar como bola de neve para novos episódios que se sucedem em catadupa não permitindo ao espectador respirar. Aqui entram, pois, os diálogos dilemáticos de Ruben Östlund, nada é dado como garantido e as certezas vão sendo lentamente postas em causa, aproximando-se do caos e da permanente tensão até à alucinante cena que ocorre durante o jantar de apresentação.
         Este filme, por sinal sintoma e expressão de uma Europa polimorfa e diversa, atente-se na origem e feições faciais dos actores e actrizes, deveria ser motivo de orgulho a presença dum cineasta que interroga as convenções, põe em causa a redoma em que vivemos e permite-se inclusive duvidar do "lugar de onde cada um de nós fala", convocando-nos para uma reflexão sobre o "outro", porventura, aquele que excluímos dentro de nós. A parte final é reveladora dessa humanidade que tarda em chegar, esse reencontro connosco que só assume clareza pós a queda e onde não nos devíamos esquecer do princípio que nos devia reger: a dignidade. É essa dignidade que não precisa de nenhuma figura geométrica para se demonstrar, melhor dizendo, do lugar onde estamos nem sempre nos é permitido qualquer redenção!

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Noite de Poesia na Tascá

Poema

Um dia hei-de ver se me levanto cedo
para apanhar o mundo de janelas fechadas,
a relva molhada cheia de gotas de água,
as bicicletas dos operários suburbanos,
o bafo dos burros das carroças de couves,
e o último poeta, coberto de orvalho,
trazendo um soneto e a noite em claro,
o último candeeiro iluminado.

(Um dia hei-de ver se me levanto cedo,
após uma noite sem silvos e asas,
sem tubos de aspirina e momentos de febre)
Um dia hei-de ver se me levanto cedo,
hei-de ver se me estudo sob a luz primeira
e se me lembro do meu riso de pequeno,
quando me faziam cócegas no pescoço...

Alexandre O´Neill

Curtas Metragens no Teatro Micaelense

Hoje, quinta-feira, às 21h30.

Vista de Cima

Fotografia de Carlos Olyveira

Da Criatividade

«O adulto criativo é a criança que sobreviveu»
Ursula K Le Guin, in Revista LER, Dezembro de 2017

Lavoisier: O Direito de Transformar

     Sim, é verdade, houve entrega e deleite na atuação ao vivo dos Lavoisier na Galeria Arco 8 deste passado sábado. Um guitarrista e voz (Roberto Afonso) e uma cantora (Patrícia Relvas) trouxeram a tradição e a experimentação pela segunda vez que se apresentaram ao público micaelense (a primeira vez foi na terceira edição do Burning Summer Festival, em Setembro último). 
   O duo apresentou-se em palco com a segurança de quem sabe que cada concerto é um desafio e que o público insular pode ser gelo que derrete sem se ver. A assistência, cerca de setenta pessoas, esteve concentrada e curiosa durante hora e meia de espectáculo. Por sinal, houve logo uma sensação de reconhecimento imediato do reportório que nos remete para outras vozes e outros tempos, essa identificação precoce de um imaginário popular, colectivo, bem português. O tema “Senhora do Almortão”, entoado com versos diferentes em cada região, serviu de mote para começar e, quase no final, dar por concluído o concerto evidenciando, assim, o modo recreativo patente no processo da banda. Após a audição desta ousada proposta musical, o modo e o jeito como são (re) interpretadas estas canções, é que se percebe a garantia e relevância deste projecto que se quer criativo e transformador.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Do Alexandre, o Alma Grande...

         Ontem, sem me dar conta, era o seu aniversário. Se fosse vivo, Alexandre O´Neill faria 93 anos de idade. Era um grande poeta, um verdadeiro amante na arte de bem tratar a língua portuguesa. Pensava, inclusive, que o feio devia ser motivo de burilação até forçar o aparecimento do belo. Estranhamente, trabalhou a vida inteira enquanto publicitário. E, ainda sem que tivessem publicitado a efeméride, fui à procura da sua biografia literária escrita pela Maria Antónia Oliveira. Encontrei o livro com dois preços de saldo e o livreiro, um homem deveras simpático, amante dos livros e das letras, disse-me que levasse aquele que tivesse o preço mais baixo. A senhora da caixa ainda me agraciou a propósito da compra em época natalícia: "É claro que é para ler e não para oferecer." E, certamente, que é de leitura que se trata...