sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Fim de Semana de Alexandre O´Neill

Estirado na areia, a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve para esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou, de azul e areia
para onde, aos milhares, nos abalançamos,
como quem, às pressas, o corpo semeia.

Alexandre O’Neill

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Semear em Janeiro...

      "Janeiro semear centeio, favas, ervilhas, alhos, couve-flor e mergulhar vides. Semear goivos, crisântemos, ervilhas de cheiro e girassóis. No minguante da lua podar roseiras e árvores de fruto. Lavrar e preparar a terra."
in Agenda Terra, 2018.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Hoje à noite, no Cine Borboleta

A Ultrapassagem, 1962, de Dino Risi


                Dino Risi filmou há cinquenta anos a sua versão cinematográfica do verão italiano: a sombra e o sol, a cidade e o campo, a praia e o mar, a amizade e a aventura. Para isso, muniu-se de dois atores: Jean Louis Trintignant e Vittorio Gassman (ainda que a primeira escolha fosse Alberto Sordi). O cineasta, com formação em Medicina, começa por dar-nos a conhecer essa célebre expressão italiana “Ferragosto”, um feriado italiano celebrado a 15 de Agosto, motivo de patriótica comemoração. Associado à celebração da metade do verão e do fim das colheitas nos campos, seria a Igreja Católica a adoptar a data para celebrar a assunção da Virgem Maria. Actualmente o Ferragosto é o dia em que milhões de italianos deixam as suas cidades de origem e demandam outras paragens em busca de repouso ou diversão. 
O Verão de 1962 em Itália cheirava a spaghetti e a boom económico, a economia crescia e o automóvel epitomizava a sociedade do progresso e do bem-estar. Este é o primeiro road-movie da história do cinema, sete anos antes de “Easy Rider” de Hopper, ainda que aqui fosse o volante do Lancia Aurelia B24, e o som da mítica Klaxon, ao qual imprime velocidade e um ritmo estonteante, quase sufocante. O carro é aqui a expressão da liberdade e da velocidade, inaugurando um tempo novo, repleto de comodidades, movimentações e deslocações.
     Vittorio Gassman, que participou em treze filmes de Risi, encarna aqui a personagem do fanfarrão, mestre na arte de saber viver, um homem de meia idade que se deixa ir com a ligeireza e leveza da estação dos grilos e das cigarras. Sempre com a resposta pronta na ponta da língua, ávido dos prazeres terrenos e imediatos, forçando a companhia de quem estivesse próximo. É um filme fresco, quente, sob o signo de Eros, que obteria em português o título “Ultrapassagem”, mas que teve também a tradução de "O Fanfarrão". Curioso, não é?

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Pão

Há pessoas que amam
Com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
Na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
E pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.

Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Quasi Edições, 2005

Diário

“O importante é sempre isto: concentração. Concentração: etimologicamente – com um centro. Afastar  da luz excessiva mas sem movimentos violentos, sem grandes frases, sem altifalante.
Para se escrever é necessário um solo firme e movimentos mínimos. Os micro-movimentos da mão do próprio acto de escrever devem ser resultado das também subtis mudanças da posição dos pés, e ainda da calma voz e das calmas palavras.
         É necessário silêncio ou um ruído base fixo que não se excite minimamente com as constantes excitações do mundo(…)”

Gonçalo M. Tavares in Jornal de Letras, 19 de Dezembro de 2017

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

3xKaurismäki

         

             Agora que o filme "O Outro Lado da Esperança" se encontra disponível nas salas é possível ver ou rever em DVD estas três películas do finlandês -"Contratei um Assassino"(1990), "A Vida de Boémia" (1992) e "Le Havre" (2011), todos eles contidos na caixa da Midas. Mergulhe-se neste cinema nostálgico, na sua estética lúgrubre composta de melancolia e esperança. No visionamento de "Vida de Boémia" sobressai a amizade, em "Contratei um Assassino", o amor, e em "Le Havre" sobressaem os dois em conjunto, ainda a solidariedade. 
            Aki Kaurismäki vive entre a Helsínquia, Finlândia, e Monção, em Portugal. São muitos os que começaram a ver filmes os seus filmes nos cineclubes e certamente se lembrarão das reacções a esta obstinada e resistente cinematografia: estranheza e  perplexidade. Tantos anos depois as invectivas à particularidade e exceção mantém-se e há por isso que continuar  a exercer o salutar direito de ver e reflectir!

sábado, 6 de janeiro de 2018

Da Estrutura Social

         “A estrutura social é real e tem fortes consequências, especialmente visíveis quando são violadas. Exatamente como numa cidade, segue-se geralmente os passeios, torneia-se os edifícios ou entra-se neles. A vida é governada por estruturas externas, responsáveis por constrangimentos e possibilidades, sejam elas físicas e sociais. Os comportamentos individuais não podem ser compreendidos sem ter em conta as estruturas sociais. Esta é a razão pela qual estrutura social é real e autónoma.”

Thomas Brante, Consequências do Realismo na Construção da Teoria Sociológica. 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Mora na Filosofia de Caetano Veloso

Eu vou lhe dar a decisão
Botei na balança e você não pesou
Botei na peneira e você não passou
Mora na filosofia pra quê rimar amor e dor
Mora na filosofia pra quê rimar amor e dor

Se seu corpo ficasse marcado
Por lábios ou mãos carinhosas
Eu saberia ora, vai mulher
A quantos você pertencia
Não vou me preocupar em ver
Seu caso não é de ver pra crer

Tá na cara!

domingo, 31 de dezembro de 2017

Um bom ano de 2018!

Fotografia de André Almeida

Cineclube Octopus: o Quadrado a Fechar 2017!

De volta ao norte, à cidade atlântica de seu nome Póvoa de Varzim, hoje, sossegada, longe das catervas de gente em passeio dito alegre, afastada desse estio com praias repletas de gente em veraneio, a paisagem agora parece outra. É uma cidade líquida, com chuva, frio e uma calmaria interior que se instaura. Por isso há passagem pelo renovado Cine Teatro Garrett para espreitar a programação do Cineclube local pertencente ao “Octopus – Grupo de Investigação Científica e Animação Cultural”, que com este ano novo que se anuncia celebrará 40 anos da sua actividade ininterrupta, percorridos por diferentes gerações que souberam prestar serviço público na divulgação da ciência e das artes que mais gostavam. E, para quem por aqui andou nos idos anos 90 do século passado, sente nisso uma enorme admiração, o orgulho de já lhe ter pertencido e, entretanto, reparar que pouco ou nada mudou neste espírito subjacente à sua acção. A isso acrescente-se uma programação cuidada e actual na escolha dos filmes e ainda um espírito cineclubista digno desse nome. Basta ver a lista de filmes do mês de Dezembro, que começou logo com “A Fábrica do Nada”, de Pedro Pinho, uma película portuguesa galardoada em muitos festivais por onde tem passado, seguiu-se a longa-metragem dos irmãos Safdie “Good Time” (Quem ainda se lembra de “Vão-me Buscar Alecrim”?), depois veio “O Outro Lado da Esperança”, do finlandês Aki Kaurismäki, e, por fim, o vencedor da edição deste ano do Festival de Cannes – “O Quadrado”, de Ruben Östlund. Este último com a sala praticamente cheia, caucionada pela qualidade de uma projecção cinematográfica irrepreensível.
Relativamente à premiada obra de Ruben Östlund, apelidada com o curioso título de “O Quadrado”, podemos concluir que se trata de um filme deveras instigante, dilemático, e, porque não dizê-lo, inteiramente hodierno. Logo para começar, vê-se que é um filme atento e "observador" da arte dita contemporânea e da influência social que gira em torno do mercado da arte e dos seus fiéis seguidores. A trama gira, portanto, em torno de um curador bem sucedido que no decorrer da preparação de uma exposição se vê espoliado da carteira, telemóvel e botões dos punhos do avó à saída do metro. Este acontecimento aparentemente perturbante irá funcionar como bola de neve para novos episódios que se sucedem em catadupa não permitindo ao espectador respirar. Aqui entram, pois, os diálogos dilemáticos de Ruben Östlund, nada é dado como garantido e as certezas vão sendo lentamente postas em causa, aproximando-se do caos e da permanente tensão até à alucinante cena que ocorre durante o jantar de apresentação.
         Este filme, por sinal sintoma e expressão de uma Europa polimorfa e diversa, atente-se na origem e feições faciais dos actores e actrizes, deveria ser motivo de orgulho a presença dum cineasta que interroga as convenções, põe em causa a redoma em que vivemos e permite-se inclusive duvidar do "lugar de onde cada um de nós fala", convocando-nos para uma reflexão sobre o "outro", porventura, aquele que excluímos dentro de nós. A parte final é reveladora dessa humanidade que tarda em chegar, esse reencontro connosco que só assume clareza pós a queda e onde não nos devíamos esquecer do princípio que nos devia reger: a dignidade. É essa dignidade que não precisa de nenhuma figura geométrica para se demonstrar, melhor dizendo, do lugar onde estamos nem sempre nos é permitido qualquer redenção!

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Noite de Poesia na Tascá

Poema

Um dia hei-de ver se me levanto cedo
para apanhar o mundo de janelas fechadas,
a relva molhada cheia de gotas de água,
as bicicletas dos operários suburbanos,
o bafo dos burros das carroças de couves,
e o último poeta, coberto de orvalho,
trazendo um soneto e a noite em claro,
o último candeeiro iluminado.

(Um dia hei-de ver se me levanto cedo,
após uma noite sem silvos e asas,
sem tubos de aspirina e momentos de febre)
Um dia hei-de ver se me levanto cedo,
hei-de ver se me estudo sob a luz primeira
e se me lembro do meu riso de pequeno,
quando me faziam cócegas no pescoço...

Alexandre O´Neill

Curtas Metragens no Teatro Micaelense

Hoje, quinta-feira, às 21h30.