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| Fotografia de Carlos Olyveira |
sexta-feira, 2 de março de 2018
Instântaneos de Claudio Magris
"Certos lugares, por vezes, formam quase uma unidade com as nossas próprias pessoas, são uma modalidade da nossa relação com o mundo. Lugares significam paisagens, naturais ou edificadas pelo Homem, ou melhor, ambas, o lago e a pequena casa na beira indissolúveis numa lírica de Brecht. Lugares significam sobretudo pessoas, mais ou menos familiares ou quase desconhecidas, mas ainda assim testemunhas, embora parciais, da nossa existência."
Claudio Magris, in Instântaneos, 2018
quinta-feira, 1 de março de 2018
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
Oficinas de São Miguel: Serigrafia com Igor Boyer
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| O caderno impresso com serigrafias (Fotografia de Carlos Olyveira) |
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| Serigrafia de Dinis Botelho (Fotografia de Carlos Olyveira) |
A serigrafia tem vindo a
conquistar entusiastas e seguidores em Ponta Delgada e isso ficou patente no
workshop promovido pelas Oficinas de São Miguel. Uma dezena e meia de
participantes realizou experiências e deu azo à criatividade e liberdade
gráfica. Foi um processo orientado por Igor Boyer, artista natural de Aveyron,
França, bastante activo na cena alternativa francesa, e que tem participado em
variadíssimos projectos colectivos bem como investido em torno de publicações e
organização de eventos performativos e sonoros. O resultado, tal como podem ver
pelas imagens, é sempre esta arte próxima e singular.
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018
A Quatro Mãos
“Mas de repente dou por mim a olhar para o
nosso quintalinho literário e a perguntar-me: que se passa? Os escritores não
precisam de estímulos? A realidade, agora a cores, basta-lhe? É ela o grande
ópio? Quase tudo sóbrio e a trabalhar por obrigação. Acabaram-se os O´Neill e
os Pachecos (o Luís e o Assis), os cafés e as tertúlias de onde se saía, ou de
gatas ou com a cabeça cheia de ideias para escrever, ou as duas coisas juntas.
Grande parte da literatura caiu nas malhas de uma triste engrenagem comercial
que se julga alegre e viva, mas é cinzenta e igual. Ninguém arrisca uma
gargalhada forte, satírica (Júlio Conrado acaba de dar uma, mas a gargalhada
ressentida também não é sadia), a poesia anda melancólica, a prosa vive de
memórias, o ensaio, depois do vigor do Eduardo Lourenço, academizou-se (e por
mim falo). Falta-nos seiva (vamos buscá-la, de vez em quando, aos livros de
Maria Gabriela Llansol), falta-nos a verve visceral, o humor certeiro – sempre vamos
lendo o “Fora de Mercado” do Jorge (Silva Melo). A literatura que se faz será
séria, sólida e serena, mas raramente nos desafia ou faz estremecer. Está a
ficar frouxa. É dos tempos. (…) A escrita profissionalizou-se, é o que é, -
hoje, todos temos que ser “profissionais” sem professar coisa nem causa
nenhuma. E por muito que muitos continuem a dizer em entrevistas que escrever é
“uma necessidade” (Necessidade? Ah, a língua portuguesa, tão traiçoeira, e tão
poucos a servir-se disso, a fazer desta necessidade uma virtude!), os
resultados raramente convencem.”
João Barrento, in “A Quatro Mãos”, Público, 28
de Julho de 2001.
Andar nas Nuvens
Levanta
apenas a cabeça
E
é o mundo a extensão do mundo
Repousem
sombrios nas mãos
São
esses os frutos aéreos
Respiram
em ti
Na
profusão da terra
Um
dia inteiro sustenta os olhos
Afunda
as figuras que adivinhas
Tanto
persistem, sempre mais revoltas
Onde
adormeces quando partes?
Abraçar
o tempo, andar nas nuvens.
José
Manuel Teixeira da Silva, in Música de Anónimo, edição da Companhia das Ilhas.
sábado, 24 de fevereiro de 2018
Se me Agiganto
Espero
que te venha o sono
Que
te deites cedo antes de eu chegar
Que
isto de ser dois, longe de plural é tão singular
Paredes
de empena já não vale a pena resta-nos arder
Que
esta chama lenta já virou tormenta ao entardecer
Ninguém
me diz o que há depois de nós
E
se depois de nós os dois me agiganto
Eu
já fui embora já marquei a hora pra não me atrasar
Já
comprei bilhete, deixei-te um bilhete a descongelar
Os
restos de ontem dão pró jantar
Ninguém
me diz o que há depois de nós
E
se depois de nós os dois me agiganto
in "Linda Martini", Linda Martini, 2018.
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
Hoje há quinta nocturna de poesia no Tascá.
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| Fotografia de Carlos Olyveira |
também
receamos que não nos paguem as passagens para ir à capital passear o copo de
gin muito bonitinho e enfeitado com o nome do arquipélago, com direito a uma
salada-da-moda e a uns sapatinhos a condizer - devidos swag e circunstância
incluídos no pacote.
claro
que sabemos que a cultura é um rappel de domingo e quem não se aguenta na corda
cai da parede e estatela-se na ignorância de ter pensado que havia alguma coisa
de sério em tantas gravatinhas sentadas e atentas aos doutores. o desencanto
serve-nos de pouco.
hoje,
de facto, não celebramos nenhuma consagração. celebramos, com a gratidão dos
copos e dos brindes, o gesto que a Sara Santos e o Carlos Alberto, sem
aparatos-rtp ou afinados ardores e coros da capela, tiveram para com estas
noites: ofereceram-nos dez livros de poesia para usufruto público, isto é, para
quem passar pelas quintas nocturnas do Tascá.
por
falar em Tascá, celebramos também que o Senhor Paulo Amado seja o melhor dos
anfitriões de semana em semana em semana. o anfitrião que participa mais na
noite de poesia do que as entidades culturais públicas todas somadas no
arquipélago.
achamos
por bem temperar o nosso anonimato com um pouco da histeria mediática geral.
se
calhar não merecemos, porque não andamos a plantar peluches do Antero de
Quental em tudo o que é jardim público. achamos que não é a distribuir flores
líricas e beijinhos pela rua que se resolve seja o que for.
e
achamos que a estátua está como está: cagada pelos pombos.
(é.
a cidade dos poetas é Ponta Delgada, mas este fornecimento das noites de poesia
semanais no Tascá veio da Rua Manuel Paulino de Azevedo e Castro, 3, 9930-149,
Lajes do Pico).
Obrigado,
Companhia das Ilhas.
Obrigado,
Tascá.
Obrigado,
João Habitualmente:
«e
agora não agradecemos a mais ninguém
porque
vamos comer um bom bife
talvez
devêssemos agradecer
à
defunta vaca
porque
sempre em tudo o que façamos
sem
dúvida contraímos
obrigação
de comer um bom bife
e
foder uma garrafa de verde
o
que é um acto poético
de
incomensurável estética.»
Leonardo
terça-feira, 20 de fevereiro de 2018
O Regresso de Janeiro a Meio de Fevereiro
Magnífico
Doutor Mara,
Espero que esta aguardada carta o
encontre dotado de todas as suas capacidade físicas e intelectuais, e que não
se deixe deslumbrar pela ilusória circunstância marítimo-turística insular – é
muito fácil cair em desgraça.
Lamentavelmente não lhe pude escrever
mais cedo, pois não me ocorreu e como pode imaginar só eu próprio me poderia
lembrar de o fazer. Por razões de segurança não lhe poderei fornecer a precisa
localização de onde estive este mês e meio, mas para alimentar a sua fértil
imaginação, posso-lhe dizer que estive
sediado num lugar a vários quilómetros daqui.
Fica portanto a saber que não estive cá. Mas o Doutor Mara, que é um
rapaz curioso desde os nossos tempos de faculdade, deve estar a perguntar-se
“mas que raio esteve ele a fazer tão longe?”. Descanse Doutor, que já lhe
conto. Antes, abro um parêntesis para expressar a minha mais profunda
preocupação com o facto de, na minha ausência, algumas destas cartas terem sido
roubadas e publicadas publicamente, o que duplica a minha insatisfação e me
deixa estupefacto, sobretudo pelo facto de você desconfiar que lhas tiraram do
seu realmente sobretudo. Não querendo aprofundar este lamentável episódio,
quero porém deixar claro que não concordo de todo com aqueles que falam da sua
negligência e até conivência com os larápios, por forma a obter vantagem
financeira pessoal ou qualquer outro tipo de favorecimento mais perverso que de
tão perverso nem é digno de aqui ser redigido. Não. Não acredito nesses diz que
disse, sei perfeitamente que o seu sobretudo está apinhado de bolsos e que nem
sempre é fácil organizar a papelada. Fico porém piurso com a situação. Assim
que soube dei um murro na primeira mesa que encontrei.
Voltando à minha ausência, devo dizer-lhe que
é mal empregue o dinheiro que paga aos seus informadores, pois nada do que diz
a meu respeito corresponde à verdade. Não estive em campeonatos de jogos de
azar. Com sorte fui a um ou outro concerto de música experimental, mas sempre
com uma barba postiça e botas de camurça para não ser reconhecido. Na
realidade, estive a conceber uma obra conceptual minimal, uma monumental
instalação artístico-paisagísta de carácter híbrido, que irá estar patente num
dos grandes museus de Lisboa em breve, e que me abrirá muitas portas. Julgo que
começarei finalmente a ser convidado para os melhores cocktails da cidade em
rooftops particulares cheios de gente queimada mesmo no inverno. Mas se quer
saber mais, e mais e mais, terá de esperar um pouco mais, e mais e mais.
Por fim, compreendo a sua
incompreensão relativamente à presumível distinção da minha obra literária,
pois julgo haver um verdadeiro e categórico equívoco. A única coisa que escrevi
no ano de 2017 foi um compêndio geral de plantas exóticas, que foi um fracasso
de vendas e me levou à rescisão de contrato com a editora do meu primo afastado
Sousa Penetra. Mais uma vez julgo estarmos perante uma brincadeira de mau gosto
lançada com o intuito de denegrir a minha imagem, mas eu não me vou deixar
abater. Não sei de nada, não ouvi nada, acabei de nascer e mal sei falar.
Gugu, dada
Janeiro
Alves
A Meio de Fevereiro a Missiva para Janeiro
Caro Janeiro Alves,
Um impaciente abraço
Escrevo-lhe com alguma urgência já que urge o meu banho de mar...sinto-me com o corpo entorpecido, com défice de entusiasmo e energia e à espera do respectivo choque térmico necessário para o começo de mais uma semana de trabalho.
Sob forte efeito da curiosidade está este meu estado mental, pois nada sei de si, meu bom amigo. Eis que entro por Fevereiro adentro e esta é a altura em que por vezes me dedico a reflexões de inclinação geográfica e melancólica: Por onde andará Janeiro? Que selo trará a sua próxima missiva? Que chafarricas literárias ou casas de pasto se encontra frequentar? O que levará vestido Janeiro aos domingos com o frio que se faz junto do Panteão?
Desta feita, tenho notado em mim o peso da sua ausência na caixa do correio, já que por ali apenas moram facturas, notas de débito e demais avisos das rebaixas recentes dos vinhos nos hipermercados. Entretanto, algo me tem deixado com alguma esperança, já que me disseram que o tinham visto em bailes de Carnaval, concertos de música experimental ou que presenciaram o seu semblante em jogos de bilhar, carteados, xadrez, gamão e houve até mesmo quem me garantisse que o viram num campeonato internacional de dominó…
Não minto ainda se disser que não esperava ouvir o que ouvi. O que é um facto é que ouvi algures que o amigo Janeiro irá merecer a distinção de melhor obra literária em 2017. Mais uma vez, incompreensível.
Um impaciente abraço
Doutor Mara
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018
Myosotis Azorica
Se o sangue correr e subir
ao cimo do verde da montanha
agarra a única certeza
reconhece pétala a pétala
provavelmente assim provarás
a sua existência é fruto
de uma inglória narrativa
pois à noite já não aguardamos
o amanhã de te avistar
Fajã
Grande, verão de 2012
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
Grotta nº2 na Livraria Solmar, às 19 horas

“É verdade que os Açores e a Irlanda são verdes, como está vestido de verde a mítica figura do duende irlandês no fim doo arco-íris, guardando o seu pote de ouro. Não há como contornar a biologia. Três partes de água para uma parte de terra e temos a profusão de cores com o verde a imperar. Mas há mais. O verde das ilhas, sim, mas os vários tons de azul do mar, aquela alternância de reflexos bicolores entre o cinzento e o azul do céu. O mar cerca-nos e o céu fecha-se. Resta-nos o verde, com um fundo de estúdio sobre o que podemos projectar o que quisermos.”
Pedro Santo
Tirso in Grotta-Arquipélago
de escritores nº1, 2017
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