| Fotografia de Tânia Neves dos Santos |
quarta-feira, 1 de janeiro de 2020
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
Missiva à laia de 31 pelo Janeiro Alves em Moimenta da Beira
Ou muito me engano, ou
esta carta com vista para dois mil e vinte encontrará um Doutor Mara ainda
inebriado pela quadra natalícia, envergando a sua habitual camisola de lã com
renas e o respectivo gorro vermelho com pompom, e cantando aqui e ali pequenos
trechos do Gingle Bells. Ainda esta
semana obtive a informação de que fulano o viu assim numa casa de pasto insular,
tendo-me contactado logo de seguida. Disse-lhe telefonicamente, e depois de um
longo bocejo, que de nada de preocupante se tratava, e que era apenas uma forma
de o Doutor Mara chamar a atenção.
Registado este pequeno
apontamento, e porque hoje é o último dia do ano, escrevo-lhe de Moimenta da
Beira, localidade pitoresca do interior do país. Foi aqui que muita da história
de Portugal aconteceu, e que o gasóleo
da auto-caravana acabou. Acabei por vendê-la a um estrangeiro, para pagar
dívidas de mercearia. Estou hospedado na estalagem central, preparando-me já
para a grande noite de Reveillon. Para além do habitual caldo verde e das
passas, a estalagem apresenta mais logo um espectáculo de música ao vivo com o
incontornável Tó Organista. Como se deve recordar, conheci o Tó Organista numa
feira de gado há uns anos atrás e ficámos muito amigos. Espero que ele ainda se
lembre de mim, pois é certo que me convidará para subir ao palco e cantar um ou
dois temas. Pelo sim pelo não já comecei a beber Macieira, que como o próprio
nome indica, amacia a voz.
Assim, e apesar de não
me ter convidado, não me vai ser possível passar o Reveillon deste ano consigo,
com muita pena sua. Mas a vida é assim. Como dizem os franceses, “parfois
ensemble pour le Reveillon, parfois non…”. Acabo esta carta com uma boa notícia
para si. Lembra-se daqueles cem euros que lhe emprestei há uns anos atrás para
o Doutor Mara fazer face àquela situação constrangedora que por zelo não
nomearei nesta carta? Para além de não lhe pedir qualquer juro, ainda lhe
reduzo a dívida para oitenta euros. No envelope encontrará um pequeno papel com
o meu nib, e rapidamente o assunto ficará esquecido para sempre.
Despeço-me com um olhar
fascinado e comovido sobre dois mil e vinte e a promessa de voltar em Fevereiro
com todo o fulgor que a química moderna me permitir, desejando ao meu amigo um
novo ano melhor do que o presente, que já não foi mau, mas que poderia ter sido
melhor, como aliás todos os anos acontece, à excepção de alguns onde se
verifica precisamente o contrário.
Cumprimentos reveillonistas,
Janeiro
Alves
"A Construção Moderna" (1900-1919)
"A história e a colecção completa desta revista que durou 542 números, publicados ao ritmo quinzenal, e depois trimestral, até Julho de 1919, estão agora no portal de "Revistas de Ideias e Cultura (RIC), à atenção dos historiadores, investigadores e demiais interessado na arquitectura portuguesa do início do século XX."
Sérgio C. Andrade, in Jornal Público, 26 de Novembro de 2019.
sábado, 21 de dezembro de 2019
Sem Mar
Dizes-me:
nunca há mar nos teus poemas
Pois não. O mar que conheço é baço
e o que nunca vi é estranho
insondável como poço, afoga-nos num lento abraço
Dizes-me depois:
nunca há mar, mas há aldeias
Pois há. E há mulheres, há sempre mulheres.
Umas a chegar, outras a partir.
Gosto de encontros, gosto de despedidas - Há sempre mulheres,
(algumas despidas
Não me atrai as ondas
o modo magnético de nos prenderem o olhar.
Prefiro-o à solta pelas aldeias
é que tudo que há nelas me dá ideias
mesmo um triste poço, mesmo um monte baço
João Habitualmente, in "Um dia tudo isto e será meu (uma antologia)", Porto Editora, 2019.
nunca há mar nos teus poemas
Pois não. O mar que conheço é baço
e o que nunca vi é estranho
insondável como poço, afoga-nos num lento abraço
Dizes-me depois:
nunca há mar, mas há aldeias
Pois há. E há mulheres, há sempre mulheres.
Umas a chegar, outras a partir.
Gosto de encontros, gosto de despedidas - Há sempre mulheres,
(algumas despidas
Não me atrai as ondas
o modo magnético de nos prenderem o olhar.
Prefiro-o à solta pelas aldeias
é que tudo que há nelas me dá ideias
mesmo um triste poço, mesmo um monte baço
João Habitualmente, in "Um dia tudo isto e será meu (uma antologia)", Porto Editora, 2019.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
sábado, 14 de dezembro de 2019
Busto e Costas
Sei que gostas
de vestidos sem costas
e de grandes decotes nas blusas
sei que os vestes e usas
Toda essa conspiração
de tecidos que te despem
se destina à minha derrota:
vergas-me ao teu busto ardente
aniquilado pelo decote que te rasga o peito
Sei que gostas
de blusas sem ombros
e de vestidos sem costas
sei que os vestes e mostras
e sei que usas
finas rendas que te desvendam o busto
e me reduzem a escombros
si que te olho
e me assusto:
gosto de ti
com vestidos sem costas
gosto eu e sei que gostas
mas gosto mormente de blusas sem alças
e de vestidos sem frente
João Habitualmente, in "Um dia tudo isto será meu (uma antologia)", Porto Editora, 2019.
de vestidos sem costas
e de grandes decotes nas blusas
sei que os vestes e usas
Toda essa conspiração
de tecidos que te despem
se destina à minha derrota:
vergas-me ao teu busto ardente
aniquilado pelo decote que te rasga o peito
Sei que gostas
de blusas sem ombros
e de vestidos sem costas
sei que os vestes e mostras
e sei que usas
finas rendas que te desvendam o busto
e me reduzem a escombros
si que te olho
e me assusto:
gosto de ti
com vestidos sem costas
gosto eu e sei que gostas
mas gosto mormente de blusas sem alças
e de vestidos sem frente
João Habitualmente, in "Um dia tudo isto será meu (uma antologia)", Porto Editora, 2019.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
Missiva Natalícia para Janeiro Alves
Ilhas Atlânticas, dia 9 de Dezembro de 2019
Caro Janeiro Alves,
Reestabeleço
contacto com o amigo Janeiro, nesta tarde outonal, na esperança de descobri-lo moço
e ambicioso. Sim, é verdade, a sua última missiva tresandava a desencanto e
abandono. Inesperado, para não dizer surreal, este retorno às raízes do amigo Janeiro.
Soa a ranço, para não dizer nostálgico, este professar dum adeus à antiga capital do
império para refugiar-se no pinhal rodeado de vegetais e salchichas. Isso só
pode simbolizar rendição à gentrificação, melhor, cedência ao “modus operandi turisticus” a que muitos
dos nossos concidadãos foram submetidos.
Aproveito,
assim, para comunicar-lhe que me tornei economicamente viável, já que acabei de
participar num encontro literário com a preleção “E Rimbaud…gostava de Ramboia?”, com a assistência a rejubilar com
tamanha agudeza e assertividade, não podendo deixar de soltar uma lágrima
aquando da ovação de pé durante cerca de onze minutos. Nesta minha magnífica
palestra não me esqueci de exaltar a paciência dos editores e livreiros que,
ainda assim, continuam a convidar-me para estar presente nestes eventos de
grande gabarito.
Desta
feita, volto a referir que as suas mais recentes missivas revelam um Janeiro
Alves cada vez mais eremita e misantropo. Por isso, não sei se irei aceitar o
seu convite já que tenho receio de me distrair com o que terão para dizer
figurões e personagens como Victor Klaus, Alberto Ai, Andar Carrasco, Fausto,
Giorgio Delle Mare ou, imagine, soube da presença, este Natal, do curassário, Nikos Falácia
Cautela, que me afiançou estar ansioso por degustar as iguarias e néctares dos
deuses da sua mesa natalícia. Desconfio que serão muitos os artistas presentes
mas, confesso-lhe, que o Movimento Alarvista está perdido, descamba a toda hora
com tanta opacidade e nulidade criativa. A colocação de ananases em telas
douradas não é bastante para renovar a arte hodierna.
Assim,
despeço-me, já que estou atrasado e os correios estão a abarrotar de gente
neste período. Aguardo, por isso, novidades suas apenas em Fevereiro…ou será
que terei alguma surpresa pelo caminho?
Com
a estima mais do que devida,
Doutor Mara
sexta-feira, 6 de dezembro de 2019
Cinema Trindade, Porto. (Até dia 11-16h00 e 18h00)
“Aqui
salienta-se a estreia, esta semana, de “Hálito Azul” de Rodrigo Areias. O cineasta
e produtor de Guimarães partiu para os Açores e centrou-se em Ribeira Quente,
povoação do sudeste de São Miguel. Areias faz um retrato abrangente daquela
aldeia piscatória, usando como mote, ou contraponto, “Os Pescadores”, de Raul
Brandão, texto que está a ser encenado, de forma experimental, pelo professor
da escola local, com habitantes da aldeia. O filme destaca-se, em primeiro
lugar, pela magnífica qualidade fotográfica, a cargo de Jorge Quintela, um dos
mais talentosos diretores de fotografia da nova geração. Há uma riqueza tonal e
de enquadramentos, que inclui filmagens em alto-mar e até sub-aquáticas. Depois,
vale pelo sentido de proximidade. O realizador consegue dar-nos uma sensação de
intimidade com aquelas pessoas, mais própria da ficção, como se a conhecesse
desde sempre. Por fim, há um lado transgressor, experimental, de fronteira do
género, que resulta muito bem, sobretudo através da força da interpretação de
Zeca Medeiros. Um belíssimo documentário.”
Manuel
Halpern, Revista Visão, 28 de Novembro de 2019
terça-feira, 3 de dezembro de 2019
Ladrões de Bicicletas
“Tinha curiosidade em saber o que fazem os ladrões, como passam os dias
quando não estão a roubar. Passam-nos talvez a estudar, instruindo-se uns aos
outros, entregando-se com paixão, com um zelo infinito, aos golpes que planeiam,
interessando-se, nas tabernas, pelas proezas realizadas pelos seus parceiros,
tendo ciúmes uns dos outros, como nós, os poetas, os artistas, que não fazemos
outra coisa senão criticarmo-nos e atacarmo-nos uns aos outros, para grande
divertimento – e para edificação – do público."
Luigi Bartolini, Ladri di
Biciclete, in “De Bicicleta, Antologia de Textos, Relógio D´Água, 2019.
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