quinta-feira, 16 de abril de 2020

Quatro Poemas de Jorge Sousa Braga

O Último Girassol

Hoje  vomitei um líquido esverdeado
Eram as primeiras  folhas 
Estou prestes a florir

Sono de Primavera

Adormeço sempre com o teu mamilo
entre os dedos da minha mão
E o meu sono é tranquilo
como o das rosas.

Strip-Tease

Quanto mais me dispo

menos nu 
me sinto

Post-Scriptum

Estou mesmo a precisar 

de uma injecção
de essências de rosas 

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Ontem, escrito numa parede da cidade

Quem está à beira do lume sempre se aquece

Potro

Existe já em ti
aquilo que tudo há de ser:

um cavalo a arfar, um potro a nascer.

 João Habitualmente, in "Um dia tudo isto será meu (uma antologia)", Porto Editora, 2019.

"Tarrafal": documentário de Pedro Neves


             Todos nós sabemos que o género de documental não é potenciador de grandes audiências em salas de cinema. Aliás, o seu interesse e curiosidade em vê-los em sala resulta do imenso trabalho e muita persistência dos festivais de cinema que trouxeram este género cinematográfico de novo para a ribalta. Em Portugal, a situação não é muito diferente, ainda que cada vez haja mais documentários a estrear e alguns chegam mesmo a permanecer uma ou duas semanas em exibição. Dado esse crescente interesse, há, por isso, um aumento da produção de documentários bem como o interesse demonstrado por jovens cineastas em aproximar-se deste tipo de trabalhos. Daí que o documentário português tem sabido criar o seu espaço e fidelizar uma nova franja do público interessada no conhecimento da realidade portuguesa. 
Por isso, quem quiser ainda pode assistir a “Tarrafal”, documentário do portuense Pedro Neves, que está disponível na RTP2 Play. Para quem nada sabia do trabalho anterior do cineasta, digamos que se trata de uma inusitada e, por que não afirmá-lo, de uma entusiasmante descoberta! Pedro Neves sabe filmar os corpos, os esquecidos, melhor, os deserdados deste mundo! Há por aqui muito trabalho, muita dedicação e grande energia em filmar a vida e o que resta dela. É um cinema em estado puro, inteligente e indomável!

Verso de J.P.Simões

Em casa tenho amor, à noite canto o mar

terça-feira, 14 de abril de 2020

Três Poemas de João Habitualmente

Amor é...

Óleo de amendoim
Óleo de milho
Óleo de fígado de bacalhau
Óleo Fula
Óleo de palma
Óleo de soja
Óleo de girassol
Óleo need is love

Primavera

O louva-a-deus 
na sua paralisia de pedra verde

Fita no céu 
a valsa verde do pirilampo

Noite de insectos 
chamando-se entre si num clamor

A terra range 
cedendo aos caules que anseiam luz 

Tédio

Estou por aqui
a ver passar os navios

Tardes tão longas 
as visitas dos tios

Estou por aqui 
a olhar p´ró balão

Passa um político

Afinal é o meu cão. 

"I am Your Man"- A Vida de Leonard Cohen por Sylvie Simmons

         Sylvie Simmons escreveu uma biografia sobre Leonard Cohen, intitulada "I am your Man". A jornalista musical traça em seiscentas páginas o retrato interior deste cantautor canadiano. É uma narração ampla e tenaz, sobretudo na quantidade de informação apresentada e detalhes pessoais do biografado, e que nos parece tão bem feita que a sua leitura só faz aumentar o nosso conhecimento e curiosidade à volta do cantor. Cohen foi e será sempre recordado por canções como "Suzanne", "Famous Blue Raincoat", "So Long, Marianne", "I am your Man", sendo que ficará também na História como uma personalidade influente na poesia e na música durante muito, muito tempo.  

domingo, 5 de abril de 2020

“Cafarnaum”: O Mundo pelo Olhar de Zein


Cafarnaum”, que significa caos ou lugar de turbulência, é um filme árabe de origem libanesa, que venceu o Prémio do Júri do Festival de Cannes, em 2018. Nadine Labaki escreveu e realizou este filme, tendo, também ela, um pequeno papel enquanto actriz. Este é uma história de uma criança de um bairro pobre de Beirut que decide processar os pais por ter nascido, melhor, pelo mau viver e maus tratos infligidos por estes. Não é, por isso, uma história banal ou mesmo espectacular, o facto de ser tão crua e realista é revelador de que há ali qualquer coisa muito próxima e tocante das personagens ali caracterizadas.
A realizadora filma o seu Zein do início até ao fim do filme, as suas peripécias e anseios, como se estivesse a escalar o Monte Olimpo. Ela não larga o seu pequeno actor, plano atrás de plano, aproveitando a sua destreza e diálogo fácil junto da câmara. Abas Kiarostami dizia que o seu cinema pretendia ser uma visão do mundo através do olhar das crianças. Nadine Labaki parece ter escutado as suas sábias palavras, seguindo este lembrete da melhor forma possível, ou então reviu muitas vezes filmes como "Pixote", de Hector Babenco, ou ainda "Los Olvidados", de Luís Buñuel. É que "Zein" parece não representar e, por isso, é por demais convincente e autêntico, cativando e prendendo o espectador num turbilhão de emoções, daí que o resultado só poderia ser belo e pungente.
Esta película conta ainda com a banda sonora de Khaled Mouzanar, num registo de enorme arrebatamento e delicadeza e tal, como já foi anteriormente referido, com um "actor" irrepreensível e  magnetizante - Zain Al Rafeea. Caso para perguntar: quem pode ficar indiferente  este retrato cruel de uma infância perturbadora e dolorosa? O filme, no entanto, não pode ser visto como um dramalhão, sendo que as cenas passadas no parque de diversões ou no carrossel são pura magia cinematográfica, para além de uma fotografia que nos convida a intuir os cheiros, lugares e vivências ali representados.
Uma última nota para referir que, aquando da apresentação do filme em Cannes, o público presente prestou-se a uma ovação de quinze minutos na presença da realizadora, produtor e do seu  actor de doze anos, de origem síria, que vivia à altura em Beirut, mudando-se assim, à semelhança do que acontece no filme, não para a Suécia, mas sim para a Noruega, onde actualmente já vai à escola. Pura premonição?

sábado, 4 de abril de 2020

PDL: Um Coração Invisível

Fotografia Carlos Olyveira
E, subitamente, não há ninguém nas ruas da urbe principal de São Miguel. Ponta Delgada está agora deserta, desde que há cinco anos, com o aparecimento das companhias aéreas de baixo custo, se renovava de forma intensa e imprevista com tudo aquilo que o turismo podia mudar para melhor: iniciativa, criatividade e variedade na oferta de propostas, tanto comerciais como culturais.  
À parte as rendas para habitação de longa duração que dispararam em flecha, algumas mesmo para preços estratosféricos, foi muito interessante reparar na renovação de muitos edifícios e casas bem como no florescimento do comércio nas ruas do centro histórico. A cidade de Ponta Delgada ganhou, assim, uma nova dinâmica e colorido, pautada por um turismo muito eclético e diversificado. Deste modo, apareceram restaurantes para diferentes gostos e carteiras, alguns com muito bom gosto, cafés, lojas gourmet, galerias de arte e ainda outros serviços comerciais que se adaptaram e restauraram a sua montra e leque de oferta.  
Por esse motivo era, até há bem pouco tempo, muito entusiasmante constatar os diferentes linguajares à volta dos cafés e das praças, misturados com o sotaque local e ainda o ambiente de festa e de modernidade que por aqui se vivia. Por esta altura do ano, deveríamos estar todos a viver intensamente os dias do “Tremor”, um festival de música que todos os anos apresenta uma panóplia alargada de artistas oriundos das mais distintas partes do mundo, com um programa muito sui generis e eclético, marcado sobretudo por surpresas e descobertas. O dia principal do Tremor realiza-se a um sábado e é digno de registo e muito interessante verificar a dinâmica de que como a cidade interage com próprio festival, pois os concertos podem ser realizados, ora num café, igreja, estufa ou mesmo numa loja de roupa.
Ponta Delgada parece agora uma cidade adormecida, ainda que estes dias iniciais da Primavera com muita luz não deixem a cidade descansar de tanta beleza e comoção. O seu coração está, por agora, invisível, porventura aguardando com esperança e paciência que as artérias que lhe davam vida possam de novo fazer circular o seu melhor sangue.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Palavras

          "As palavras são uma coisa com que lutei muito em criança: ler, escrever, encontrar um sentido. Depois, tornou-se um jogo, um divertimento e agora posso usá-las para questionar algo."

Laure Prouvost 

quarta-feira, 4 de março de 2020

Cá estão as Asas

“E era uma vida incomparável, uma vida de alegria e entusiasmo em que se desenvolvia aquele amor como uma flor ébria de seiva. Era uma vida livre, sem restrições nem limites. Tinham a sensação de uma liberdade física absoluta, como se os sentidos estivessem libertos de entraves desconhecidos, como se os olhos se movessem mais livremente nas órbitas e as orelhas ouvissem sons que habitualmente são imperceptíveis. Era uma vida de seres sobre-humanos. Que maravilhosa sensação! Voar como os pássaros, em silêncio, no ar submisso; ver, como deuses, a mudança ininterrupta de cenários; descer as planícies nos vales, subir ao longo das colinas, andar de cidade em cidade, acompanhar os rios, desvendar florestas, e tudo isto graças à potência dos músculos, ao funcionamento correcto dos pulmões, à tenacidade do querer. E isto tudo sem quaisquer inconvenientes. Gostam do sol que lhes aquece a nuca, mas também gostam da chuva que os fustiga e do vento que os açoita, porque se sentem formidáveis, vencedores dos elementos, donos do mundo.”

Maurice Leblanc, in “De Bicicleta, Antologia de Textos”, Relógio D´Água, 2018.