quinta-feira, 13 de março de 2014

terça-feira, 11 de março de 2014

Sul

Fotografia de Eduardo Brito.

Postal de Miriam Manaia da Capital

          Como vai o senhor doutor?
       Aqui vai um postal da Costa do Castelo onde aluguei um pequeno apartamento para absorver a luz da cidade. Ultimamente tenho passado as noites às claras já que me tenho dedicado a rever documentários de Cris Marker e de Patrício Gúzman. Desta forma, acabo por não sair o que me traz alguma paz de espírito mas que torna o desassossego artístico e criativo cada vez maior. O que fazer?
        Soube, entretanto, que o Doutor tinha sido deslocalizado - na magnífica expressão e adjectivação desse momento pelo seu amigo de longa data, Janeiro Alves. E, talvez por isso ou não, decidi prolongar a minha estadia na cidade das sete colinas. Caso o Doutor Mara passe pela capital não se esqueça de visitar esta sua amiga que não esquece os dias de farândola noctívaga e darandina cultural – vivida e fruída em PDL – tendo por pousio o solar dos meus familiares mais próximos, os insuportáveis mas sempre fraternos, manos Manaia.

Sempre sua amiga,

Miriam Manaia 

quinta-feira, 6 de março de 2014

Mestre da Improvisação

João Paulo
Fotografia: Ana Nobre
-Estiveste há três anos na cidade da Horta, Ilha do Faial, numa oficina de improvisação musical. Que recordações guardas dessa actividade e da passagem pelo arquipélago?
João Paulo Esteves da Silva: Excelentes recordações. Ambiente fantástico, muito talento e abertura de espírito por parte dos participantes, jovens e menos jovens.
-Por fim, quais são os músicos e as músicas que te acompanham para todo o lado?
JPES: Como a lista seria interminável, proponho o seguinte jogo: Vou improvisar os primeiros dez nomes que me vierem agora à cabeça. Então, cá vai, Mozart, Bach, Beethoven, Chopin, Bob Dylan, Kate Bush, Joni Mitchel, Keith Jarret, Ornette Coleman, The Beatles...

Excerto de uma entrevista a João Paulo Esteves da Silva.

quarta-feira, 5 de março de 2014

O Miró pintor do Mundo!

Carnaval de Arlequim de Juan Miró (1924-1925)
                            









-Quem é o Miró?
-É o Miró pintor do mundo...
 in Bailinho da Ribeirinha, Carnaval da Ilha Terceira (2014) 

A Valsa Quase Anti Depressiva - Quiteto Tati (2004)




“Dança comigo a primeira valsa da Primavera/dança sem sonhos/ esquece as promessas/ ninguém nos espera/”


J.P.Simões

segunda-feira, 3 de março de 2014

90ª edição do FAZENDO

O boletim cultural FAZENDO(https://issuu.com/fazendofazendo) já tem cá fora a edição número 90 e está de pedra e cal no seu sexto ano de existência. Diga-se que o "Fazendo" conseguiu reunir os apoios necessários da comunidade leitora para manter a sua actividade mensal, continuando assim independente e gratuito. Neste número noventa, que pode ser lido em cinco ilhas do arquipélago, é possível ler um resumo do que aconteceu nessa ano do século XX, um artigo sobre o banco de Portugal e de artistas na cidade da Horta, apreciações ao trabalho musical dos Lulu Monde e de Vânia Dilac de São Miguel, textos sobre as espécies marinhas que habitam as águas açorianas, ainda uma canção de Chico Buarque, o ciclo de cinema cabo-verdiano na Ilha Terceira, as várias resenhas de livros por ler, a conclusão da crónica "As aventuras de Ezequiel Malaquias no Paraíso", etc. A tiragem é pequena, apenas quinhentos exemplares, mas que ainda assim vai tornando o Fazendo cada vez mais insular e plural. 

Anna

Fotograma de "Anna" de Alejandro González Iñárritu

sábado, 1 de março de 2014

Março Adentro

Fotografia: Tiago Rodrigues
Entrar por Março e também pelo mar adentro. Permanecer por ali, a ondejar com o peito completamente gelado e a dominar a vaga e a esconder os pequenos dedos hirtos dos pés. Um corpo ocupa demasiado espaço na água límpida por romper. Descerrar as mãos pela água salgada, abri-las para acreditar que à superfície tudo é credível, por instantes saber que são profundas as águas em que cada um se move e enfiar a cabeça nesse abraço e em todo este azul em redor. Daquele lugar guardar-se-á quase todos os mergulhos que ficaram por dar neste inverno fugidio e com o monte defronte só dá para espreitar o fundo destas águas, que são límpidas, realmente cristalinas. E a espuma é como se fosse um sopro no interior dos pulmões, em silêncio, onde podemos viver e mergulhar durante mais algum tempo. Respiramos. O mês de Março pode começar.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Revista Atlântida

A edição anual da revista Atlântida já está disponível e pode ser adquirida na sede do IAC (Instituto Açoriano de Cultura), sito no Alto das Covas, Angra do Heroísmo. A autoria dos  desenhos no interior, capa e separadores, é do arquitecto/ilustrador Luís Brum. A abrir a contenda está o artigo: “Qual o papel da cultura no nosso Portugal contemporâneo?”, onde se incita à reflexão que urge fazer sobre o “desinvestimento generalizado” nestas coisas culturais e que terá consequências na “desconstrução de todo um sistema complexo e identitário que caracteriza a nossa sociedade e nos une como um povo com oito séculos de história”. Interessante é, sem dúvida, a conversa que decorre entre Vanessa Rato e o artista Pedro Cabrita Reis bem como o “Retrato de Natália", segundo Ana Maria Pacheco do Nascimento. Uma atenção mais do que merecida e especial para “A Tourada do Mar: A Baleação Açoriana observada por Mário Ruspoli e Chris Marker”, num texto muito bem escrito e demorado, exemplarmente escrito por Francisco Maia Henriques. Parabéns à direcção do IAC, Paulo Raimundo e Filipa Tavares, pelo trabalho de recolha e organização  editorial.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Vitorino Nemésio: 36 anos depois!


Tenho uma Saudade Tão Braba

Tenho uma saudade tão braba
Da ilha onde já não moro,
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro.

Os meus parentes, com dó,
Bem que me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó
                                                                     Mereça a Deus lá ficar.

            Enfim, só Nosso Senhor
          Há-de decidir se posso
           Morrer lá com esta dor,
                  A meio de um Padre Nosso.

               Quando se diz «Seja feita»
          Eu sentirei na garganta
          A mão da Morte, direita
                  A este peito, que ainda canta.

Vitorino Nemésio, in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga".

sábado, 22 de fevereiro de 2014

A NAIFA em São Miguel

    A NAIFA dá hoje um concerto único no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada. O arquipélago tem nove ilhas. E nas outras digressões  houve concerto no Teatro Faialense, Ilha do Faial. Sempre com sala cheia, muita entrega e um envolvimento raro e contagioso. Triste país em que todos os dias tudo começa e em que nada, mesmo nada, se inscreve no corpo colectivo e já não consegue recordar a estes servidores da causa pública que antes deles outras pessoas fizeram coisas, sonharam com um país diferente e, mal ou bem, realizaram coisas que podem ou deviam ter continuidade. A verdade é que eles passam e os poetas e os músicos ficam, perdurarão no tempo. Valha-nos isso e...os auscultadores!  

Deusa Art Deco

Conheci uma deusa Art Deco
foi-me apresentada por um poeta no Caziff,
um café onde vou.
No outro dia fomos lá tomar uma bebida,
estava cheio de belas raparigas e rapazes, a conversar.
Ela lá estava, com pose atrevida, lânguida,
a insinuar o engano.
Comentamos a graça da sua elegância singular,
a razão de estar só, o olhar persuasivo...
A rapariga do balcão elucidou:
Foi pintada por um novaiorquino
de lusa fala sibilante
e a estética não é sua coetânea.

João Malaquias

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Uma Missiva Citadina de Janeiro Alves!

Meu caro Dr. Mara,
         
         Espero que esta carta o encontre favorecido nas suas faculdades mentais e na boa forma física, já que ambas são o antídoto para este marasmo social a que nos submeteram. E desejo que a força construtiva e criadora do século XXI encontre em si um fiel entusiasta, para gáudio dos que o rodeiam, e para preservação do nosso património futurista.
         Agradeço ao meu caro amigo por ter levantado o véu sobre o plano de Vivaldo. Parece-me bem arquitectado, mas ambicioso quanto à sua execução, tendo em conta as forças de bloqueio. Ainda ontem fiquei bloqueado num elevador, e sei que não foi um infortúnio casual. Temos de estar atentos, Dr. Mara... Quanto à sua amiga que partiu, a mais bela das manas Manaias, estou certo que a distância que vos separa criará uma aceleração de partículas à volta dos assuntos do coração, mas lembre-se que o fogo de artifício só brilha no escuro. Sugiro-lhe que experimente cuspir as borboletas que tem no estômago, é benéfico encontrarem o seu caminho ao invés de morrerem nos ácidos estomacais. Mas quem sou eu para falar de amores e desamores... prefiro falar de conservas e enlatados.
        Depois das intermináveis viagens de comboio pelos grandes maciços europeus, caí de paraquedas na grande cidade, junto ao burburinho ininterrupto das coisas da vida quando estão todas juntas. A polícia apreendeu-me o paraquedas, mas libertou-me sem caução. Habito, como sempre, ao pé de uma estação de comboios, medida de precaução. Gostaria de lhe deixar algumas impressões sobre esta mudança, mas agora não posso. Tenho de ir fazer o jantar. Gosto de jantar a horas quando estou sozinho. Voltarei a este assunto mais tarde.
        Caro Dr. Mara, aqui estou eu de volta e mais aconchegado pelo bacalhau espiritual e alguns decilitros de vinho do bom. Compra-se sempre vinho de qualidade perto das estações de comboios. Depois de alguns anos em isolamento nas montanhas, e depois de lidos muitos livros à luz da vela, experimento agora os antípodas, vivo as histórias da cidade, o frenesi e a novela quotidiana de cá andarmos uns com os outros. Larguei o comboio para andar a pé, e pelas ruelas da cidade sinto os cheiros a comida acabada de fazer por entre a roupa pendurada, a mãe que chama o filho, o homem do talho que alerta o freguês, o taxista aos gritos pela janela fora, da sua viatura em transgressão. Ninguém responde a ninguém, é som de fundo nas ruas como músicas de natal. Agrada-me observar as pessoas, e perceber o que é que afinal andam a fazer. O Dr. Mara não imagina a quantidade de gente que anda de trás para a frente e de frente para trás, e também de um lado para o outro. Fazem tudo a correr para depois irem para as suas casas. À noite, a luz firme das casas faz-me acreditar que o direito a ter um tecto deveria estar consagrado em todas as escrituras, mas sobretudo na preposição da vida. O Dr. Mara não imagina a angústia que é para mim ver alguém a dormir na rua, e a fazer de uma velha arcada o seu abrigo. É que o abrigo não serve só para abrigar o corpo, mas também a alma.
       A luz da cidade é favorável ao romantismo, não pela luz em si, mas pelo facto de ela incidir directa e indirectamente na beleza arquitectónica geométrica ou orgânica. A cidade é como uma casa grande cheia de assoalhadas, portas e janelas, elementos decorativos e cores vibrantes, em que o tecto é um enorme céu azul. Na cidade não há vizinhos, moramos todos na mesma casa. Pelos extensos e sinuosos corredores desta enorme moradia ouve-se musica, poesia, conversas, discussões, confusões, trambolhões e outras sonorizações da dor de viver. Na cave há contrabando e jogos ilícitos. No hall principal duzentos milhares de visitantes amontoam-se para entrar e outros tantos para os receber. Nas escadarias, um corropio acima-abaixo. No terraço todos se encontram ao fim da tarde para admirar a obra da humanidade. Talvez sejamos uma praga, mas como é bela esta praga.
       Já vai longa esta missiva. Deixo para o fim um assunto que me preocupa, e cujo cariz sensível me leva a simplificar. Soube por fontes de informação de grande fidelidade, através dos mais conceituados informadores da nossa praça, aqueles que por vezes arriscam a própria vida para recolher informações nos mais recônditos antros do secretismo, que o Dr. Mara foi deslocalizado. Não que tenha sido desprovido de um local, pois isso seria aritmeticamente impossível, mas terá sido "transplantado" para outro contexto. Espero sinceramente que se adapte ao novo terreno, que apanhe muito sol e que seja devidamente regado, pois sei que por onde passa, deixa sempre bons frutos.
Um abraço
Janeiro Alves