quarta-feira, 6 de agosto de 2014

[Podias obedecer a um registo de perder]

Podias obedecer a um registo de perder
o respeito, levantar a saia se a tivesses,
alçar a perna se cão fosses, mandar à merda
quem vem socorrer-te da vida e te decepa os dedos.

Com um rigor de artilharia que amortece o cansaço,
o combate quase sereno. De vez em quando,
fazes a conta de cor e dizes apesar de tudo, inspira-me,
e não queres saber mais do que isto.

Estás na vida como na montra alguns relógios
parados, e pensas numa sepultura no mar, tudo
menos esta terra, tudo menos uma corda, tudo menos
viver a pulso e ter de sacudir a chuva contra o casaco.

Os  dias sem prognóstico, vivendo apenas para
esperar a madrugada, e que ela venha como o cortejo
e aprendas a ficar.

Marta Chaves

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

"o Verão de 2012" de Paulo Varela Gomes

        "A Tragédia do Largo do Rato conduziu a que muitos jornalistas e outras pessoas tenham insistido comigo para ajudar a compreender aquilo que se passou. Profissionalmente não devo - e pessoalmente não quero - trazer a público elementos do meu trabalho que possam permitir mais especulação acerca do comportamento, da personalidade e motivações do meu paciente. O Verão de 2012 foi terrível para ele. Aquilo que o atormentava estava, receio bem, muio além dos meus fracos poderes, dos diálogos que oriento ou acompanho, dos remédios que prescrevo. Dividido como estava entre a vontade de ver claro em si e a tendência neurótica para perceber em tudo uma conjugação maléfica  de factores independentes da sua vontade, o meu paciente não conseguiu integrar ou dar conta do seu sofrimento. Tomei muitas notas daquilo que ele me disse, do que não me disse mas adivinhei, recebi dele fragmentos de um texto, talvez uma espécie de romance, que estava a escrever e nunca terminou, palavras que acredito terem tido relação directa ou indirecta com o seu mal e com aquilo que sucedeu no decorrer do Verão."
in "o Verão de 2012", de Paulo Varela Gomes.

sábado, 2 de agosto de 2014

Filmes d´Estio

Filme de Margarethe von Trotta
       Todos os dias conhecemos gente assim: incapazes de pensar criticamente ou analisar o que lhes mandam fazer, limitam-se a receber e a executar ordens que lhes ditam e, tal como Pilatos, lavam as mãos das consequências dos seus actos. Como funcionários exemplares, executam com eficácia as ordenações que lhes chegam de cima - “sem levantar muito cabelo”- como se costuma dizer. 
       “Hannah Arendt”, o mais recente filme de Margarette von Trotta, está dentro do registo dos filmes biográficos, retratando neste caso o pós-guerra e o pensamento da filósofa judia que dá titulo ao filme. A película começa com a captura de Eichmann pelo estado de Israel e o seu posterior julgamento. Hannah Arendt é incumbida de reportar as incidências do julgamento para o New Yorker. O filme acompanha este processo de escrita e a recepção do artigo por parte da comunidade intelectual judaica e não só. Pensar o horror, a banalização do mal, foi a incumbência de uma autora que não teve medo do isolamento nem da rejeição dos seus pares. Um filme que pensa o mal e os seus burocratas.

Avenida Marginal

Seriam quatro e a madrugada
possuída de vácuo e silêncio
à míngua da luz na cidade costeira
aproximação à escuridão das areias
e constatar de perto o berço das algas e a penedia.

Seriam quatro e a neblina
amigos como canções febris
à beira mar no nostálgico Agosto
o tempo desperdiçado, 
abalo e energia
ou a leve brisa das gaivotas 
que migram sem destino
ondas que nas rochas desabridas batem
este odor imortal da maresia.

Ontem, escrito numa parede da cidade

As minhas insónias estão carregadas de espuma e de salitre.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Velejar num Solitário até aos Açores


Ilustração de Pedro Valim
Nils Andresen não era um marinheiro qualquer, já que passou uma parte da sua vida a velejar e a publicar livros sobre os sítios por onde passava. Velejar e escrever foram dois actos contínuos e persistentes ao longo da vida e que, decididamente, o tornaram célebre junto de uma pequena comunidade de leitores ligados ao mar. Carl sentado, ao fim da tarde, numa taberna do centro histórico de Angra do Heroísmo, pensava inúmeras vezes na figura esguia e doce do seu avó e nas ocasiões que este deve ter puxado do seu caderno de apontamentos para fixar os acontecimentos do dia. Ao mesmo tempo pensava na sua própria loucura e no dia em que decidiu fazer-se ao mar para cumprir uma missão familiar: devolver os manuscritos do avó à pessoa que lhe terá feito permanecer na ilha mais tempo do que seria expectável. Uma pergunta assombrava a sua presença naquele lugar a meio do atlântico: quem seria o afortunado ou a felizarda daquela dedicatória a que os manuscritos faziam referência? Ali absorto em pensamentos, julgava que só o facto de ter ali aportado já teria valido a pena. Ele próprio não conseguia racionalizar muito bem os motivos e as razões da sua ousadia e aventura. Foi, por isso, no dia em que deixou de ir até junto do mar que decidiu viajar em solitário até aos Açores. Há tanto tempo que ele não saía do mesmo lugar daí aquela mistura de sentimentos. O que terá acontecido para se sentir tão alegre e triste ao mesmo tempo, perguntou-se? Carl há muito tempo que não vivia junto de um lugar tão próximo da natureza extrema, fosse no Inverno ou Verão. E velejar fazia-o crer que já não tinha casa. Queria muito acreditar que talvez o mar fosse a sua única morada de felicidade. Recorda-se também que um dia foi deslocado para um sítio sem mar. Os primeiros meses chegou mesmo a ficar muito abatido, tão arriado, que a planície que avistava proferia ser o mar a correr dentro dele. E emocionava-se.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Sol e ao Longe

Sol e ao longe  
é arriscado o regresso a uma casa abandonada,
começar jornal pela página última,
aos primeiros veleiros da manhã acenar,
conceber cócegas no pescoço da infância,
celeste azul do atlântico oceano por comprovar
e a janela com a alba de noite mal dormida
em pesadelo adolescente que ameaça rebolar.  

Sol  e ao longe  
abusas da exclamação e reticências,
o coração bate em silêncio devagar,
botões da camisa apertados  dois a dois, 
lamber selos demorados até chegar
no peito como tambores o cravar da meninice,
golfinhos avistados à distância do pulmão,
pingos deitados num bramido cá para fora  
e do torpor impertinente padecer
até caminhar descalço sem ver o chão.

Discos d´Estio

“When there's things to do not because you gotta
                When you run for love not because you oughta
                   When you trust your friends with no reason notta
                       The joy I've named shall not be tamed
And that summer feeling is gonna haunt you one day in your life”

 
 
"That Summer Feeling"-Jonathan Richman

Ontem, escrito numa parede da cidade

Raul Brandão não pôde conhecer as cores das alterações climáticas.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Gostaria de ler o teu livro na minha língua

              Avistava-se a cidade da Angra com o cair da noite do debutante estio. Depois de quarenta e dois dias a vacilar com o corpo e o balouço do barco no mar, branco de tanto vomitar num veleiro de onze metros, quase no último trecho da viagem marítima e pedindo socorro às veias que sossegassem, clamando pelo findar da turbulência e acicatar das ondas que o impediam de olhar o mar na horizontal, Carl Andresen conseguia, finalmente, respirar. O próprio veleiro dava sinais de cansaço, constando um pequeno mastro partido e todas as velas por amarrar. Ainda que encantado por pequenos laivos do azul ferrete açoriano avistados amiúde, este velejador dinamarquês só pensava em regressar a casa pelo ar e não mais por mar. Para ele, mal colocasse os pés em terra, daria por terminada a expedição iniciada nas Caraíbas. Há vinte anos que ninguém desatava o nó daquele barco. E, após seis meses que ali esteve, a desfrutar das delícias da marina de Anse Marcel, no norte de Saint Martin, das cubas livres e do gin, conseguiu finalmente reparar o veleiro e lançar-se ao mar. Entretanto, chovia muito, muito, ininterruptamente, quando Carl atracou o veleiro na marina de Angra, na Ilha Terceira, pousando os pés em terra e lançando-se ao caminho para o jantar. Entrementes, quando subiu a rua viu um pequeno casebre com muita gente alcandorada na porta, entrando sem hesitar. Era uma taberna repleta de gente parecida com ele, sem pátria aparente. Identificou-se imediatamente com os presentes pelo olhar gasto e cansado de alguns homens, alguns um pouco mais velhos  mas que, tal como ele, despediam-se de mais um dia.
O que trouxe Carl Andresen aos Açores? Há trinta anos o seu avó Nils Andersen andou neste mesmo veleiro pela aquela ilha do grupo central antes de regressar à Europa e o que seria uma estadia de três dias transformar-se-ia em três meses, daí que que se conte que este se tenha perdido de amores pela ilha, muito embora se desconfie que outras “razões superiores” possam ter estado no prolongamento da estadia. Apesar do enjoo e da dureza da travessia, Carl fez-se acompanhar durante toda a viagem ao arquipélago de um manuscrito escrito em português, fazendo agora questão de o transportar para todo o lado onde ia. Para tornar mais simples o seu transporte, colocou aquelas páginas no interior desse livro navegante escrito pelo avó. Era um livro já muito gasto, amarelecido, com as pontas das folhas dobradas e retorcidas do seu uso e abuso. Durante aquelas três semanas, Carl julga ter lido estas duzentas páginas diversas vezes, tomou apontamentos, coligiu notas e tentou por momentos descobrir o significado daquele título enigmático: “Velejar em Solitário até aos Açores”. Ao contrário do livro e, com o devido respeito, nunca quis saber o que seu avó terá escrito naquele manuscrito na presença da sua família. De qualquer modo, ao contrário do livro, as páginas guardadas no seu interior não estavam escritas na sua língua, continha vários desenhos e perfis femininos que se julgava serem todos da mesma pessoa. Carl soube que aquando do seu regresso a Norjedland, após essa viagem ao arquipélago açoriano, trazia um sorriso do outro mundo e que de imediato guardaria aquela alegria de forma intensa, refugiando-se de forma incompreensível. O neto soube que durante algum tempo o avó respigava o nome Açores em qualquer enciclopédia e logo se punha a traçar rotas, a inventar mapas e destinos a visitar para futuras viagens. “Gostaria de ler o teu livro na minha língua” era o título da primeira página dos manuscritos pousados agora sobre a mesa. Carl, após jantar naquela taberna, prometeu a si próprio deslindar aquele mistério. (continua)

segunda-feira, 14 de julho de 2014

À Procura de José Júlio Souza Pinto



José Júlio Souza Pinto (A Volta dos Barcos, 1891)
      Procurei por aqui, algures na cidade património, sinais da existência do cidadão José Júlio de Souza Pinto. Angrense de nascimento e de quem o historiador de arte, José Augusto França, disse ser "o mais brilhante dos paisagistas" - José Júlio Souza Pinto nasceu em Angra do Heroísmo, a 15 de Setembro de 1856, filho do Juiz de Direito, Doutor Lino António de Souza Pinto, natural de Valongo, e de Ana de Sousa Loureiro, da freguesia da Sé, no Porto. O seu irmão, António de Souza Pinto, também ele viveu a sua vida dedicado à pintura. Descubro, assim, que o pintor viveu nas ilhas atlânticas até aos catorze anos, para lá dos primeiros anos de existência vividos na Ilha Terceira, passou também pelas Ilhas de Santa Maria e São Miguel. Por aqui não há qualquer referência na obra deste à sua vivência na ilha Terceira, daí o provável desinteresse ou desconhecimento das entidades oficiais. E pergunto: o que é que terá acontecido? Primeiro, a ausência de alusões na obra do pintor ao seu local de nascimento e crescimento, por outro lado a inexistência por aqui de uma obra, uma rua, uma placa evocativa da sua origem terceirense. Soube-se que alguém da Bretanha, em França, onde o pintor viveu e viria a falecer em 1939, já quis conhecer algo mais sobre as origens do pintor português, pois à semelhança de Columbano, este possui um quadro no Museu de Orsay. É no mínimo estranho, que Angra não tenha adoptado este pintor como seu “filho” ou ainda os Açores não reconheçam a sua origem, ao contrário do que têm feito com tantos outros que partiram daqui tão novos ou ainda muito jovens.
         Não me canso de procurar "vestígios de vida" deste pintor naturalista e este interesse é muito simples de contar: há três anos deu-se um caso insólito na Ilha do Faial, quando fui surpreendido com a imagem de um postal à entrada do Museu Municipal da Horta, reconhecendo de imediato pertencer à capital balnear da zona norte. Mais tarde, ainda que fossem frágeis as razões da presença daquela obra por aquelas paragens, subi até ao seu interior à procura do respectivo quadro na sala de exposições do museu. Ali estava a pintura, com o título "A Volta dos Barcos", constando a indicação (Póvoa, 1891). Conviria recordar que no ano seguinte deu-se a maior tragédia marítima que há memória naquela cidade costeira e, provavelmente, no país inteiro: morreram mais de cem pescadores no regresso da faina. A partir de 28 de Fevereiro de 1892 as mulheres e os pescadores poveiros deixaram de poder usar para todo o sempre cores garridas, passando a vestir-se de preto como hábito. Um costume que ainda hoje mantém em “sinal de respeito pela perda dos seus entes queridos”.
         Sobre “Volta dos Barcos”, Adriano de Souza Lopes afirma que foi na Póvoa de Varzim que Souza Pinto pintou os seus melhores quadros de composição. O quadro está acessível a qualquer visitante do Museu da cidade da Horta, na Ilha do Faial. Foi pintado por Souza Pinto quando este tinha trinta e cinco anos, numa fase da sua vida de suficiente maturidade no desenho e onde era já um nome reconhecido junto dos seus pares artísticos. Esta obra é elucidativa da angústia, da incerteza e do desespero contido de quem espera indefinidamente por alguém que lhe é próximo, não sabendo se voltará. O olhar das crianças atenua o peso daquela mulher aflita e atormentada. Convém referir que o pintor José Júlio de Souza Pinto nasceu e viveu antes da invenção do cinema, e é, essencialmente, através desta imagem que hoje podemos imaginar, visualizar, recriar a vida dos nossos antepassados daquele tempo. Que prodígio! Da sua longa biografia sabe-se que começou a desenhar aos quatro anos de idade, por influência da mãe Anna de Souza Loureiro, também ela pintora, e que ficava com o coração despedaçado sempre que lhe tiravam a lousa com os seus desenhos. Um século depois, como seria interessante "procurá-lo" nas ilhas onde nasceu e viveu até aos catorze anos de idade. Será ainda possível?

Do Longo Mar de Poesia

Do longo mar de poesia
como língua de horizonte vaga
rima em linha no farrapo de nuvem cai,
ao claro verso apontado no debutante estio,
mói de verde o esgar das searas resguardado,
afastada bóia sem rumo nem claridade,
sob autênticos raios de sol mergulhado
em porto de abrigo das tardes idas.