“Antologia da
Poesia Grega Clássica” (tradução e notas complementares de Albano Martins), a Poesia
de Daniel Sá, "Só Cá Vim Ver o Sol" do Joaquim Castro Caldas, “Pensar
Outra vez -Filosofia, Valor e Verdade” de Desidério Murcho, “A
Sorte Favorece os Rapazes” de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Crematório
Sentimental (Guia do Bem Querer)" de Golgona Anghel com ilustrações de D. Anghel,
“Autógrafo seguido de Autocolantes” de Paulo Campos dos Reis, “Pátria Soberana seguido
de Nova Ficção” de António Ramos Rosa...quer número de contribuinte?"
domingo, 22 de dezembro de 2013
sábado, 21 de dezembro de 2013
Dois Poemas Para Contrariar a Chegada do Inverno de Calendário.
I
Uma mulher
em Férias é bonita
Uma mulher em Férias é bonita
Traz o calendário incerto da beleza
E os princípios regulados da paixão
Às vezes ao meio-dia nas areias desperta
O relógio biológico das frases calculadas
Uma mulher
em férias é bonita
Uma mulher
em férias é demasiado bonitaNarra histórias incríveis, improváveis
Esconde a espuma como ondas na madrugada
E, por fim, guarda a cera que arde na despedida.
II
Se um dia a tua dança for a minha dança
Se um dia a tua dança for a minha dança
Eu serei uma gota de salitre no alto da montanha
E tu um rio que corre em direcção ao mar
A noite vai alta e o desejo assim cumprido
Se um dia a tua dança for a minha dança
O sol dourado da luz do corpo enquanto nado
A esperança que vagueia e estonteia
O riso das maçãs e das folhas caídas na descida
Se um dia a tua dança for a minha dança
O azul do céu que abraça e arrebata
A canção que se canta e se adivinha
O sorriso de criança que agora guardo
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
Parabéns ao Alma Grande!
POEMA
para apanhar
o mundo de janelas fechadas,
a relva
molhada cheia de gotas de água,
as
bicicletas dos operários suburbanos,
o bafo dos
burros das carroças de couves,
e o último
poeta, coberto de orvalho,
trazendo um
soneto e a noite em claro,
do último
candeeiro iluminado.
(Um dia
hei-de ver se me levanto cedo,
após uma
noite sem silvos e asas,
sem tubos de
aspirina e momentos de febre)
Um dia
hei-de ver se me levanto cedo,
hei-de ver
se me estudo sob a luz primeira
e se me
lembro do meu riso de pequeno,
quando me
faziam cócegas no pescoço...
Se Alexandre O´Neill fosse vivo
faria hoje 89 anos. O poeta nasceu a 19 de Dezembro de 1924, em Lisboa, e viria
a falecer a 21 de Agosto de 1986. Levou uma vida inteira como publicitário, mas
Alexandre O´Neill ficou conhecido pelos versos dos livros de poesia que
publicou. Gigantesca, a sua poesia! O reconhecimento nunca foi adequando à
grandeza da sua imaginação poética, mas o rastilho literário e humano que legou
a alguns de nós dá certamente para
continuar a acreditar nas letras e na poesia portuguesa. Grato, Alma Grande!
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Os Mundos na Biblioteca
![]() |
| A Biblioteca de Viera da Silva (1949) imagem do Blog "O Bibliotecário de Babel" |
As bibliotecas foram sempre depósitos de livros, leituras, de pesquisa e de silêncio. Às vezes são demasiado solenes e, porventura, ainda bem. Uma biblioteca pode, portanto, ser um ponto de descoberta de mundos novos, de vários encontros entre quem lê e quem escreve, impulsionador da troca de saberes e de experiências e, quem sabe, um lugar propício ao aparecimento de novas vozes que poderão ir de encontro ao que sentimos e queremos deste mundo em que vivemos. Numa biblioteca concentram-se mais mundos que o próprio mundo.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Quatro Paredes e o Mundo de Marc Weymuller
“Naquele ano, voltei à Ilha do Pico, nos Açores. Queria encontrar o
escritor, poeta e baleeiro, José Dias de Melo, na sua aldeia natal, Calheta de
Nesquim. Queria passar alguns dias ao seu lado, ver como vivia. Queria ouvi-lo
falar, ouvi-lo contar as suas histórias que marcaram a vida dele. Queria filmar
a sua aldeia, a sua casa, as suas idas e vindas, acompanhá-lo, nos seus
passeios e descobrir paisagens que descreve nos seus livros. Mas quando cheguei
à Calheta de Nesquim soube que ele tinha caído doente e que tinha sido
hospitalizado em São Miguel, uma outra ilha do arquipélago. Ninguém me soube
dizer quando retornaria. Então, decidi esperá-lo. Levei comigo um dos seus
últimos livros “Poeira do Caminho”. Folhei-o para passar o tempo. E se escuto,
entendo a voz dele..."
Marc Weymuller
Marc Weymuller trabalhou para o
som de “As Ilhas Desconhecidas” (2009), de Vicente Jorge Silva(https:https://issuu.com/fazendofazendo/docs/fazendo_38_online e foi por essa
altura que travou o ensejo de querer conhecer Dias de Melo. Este seu trabalho
documental tem a particularidade de mostrar a passagem do tempo num lugar
carregado de memórias e de histórias de baleeiros elencados ao longo do tempo
por este antigo professor e depois escritor, focalizando-se essencialmente nesta fase final da sua vida, marcado
pelas contingências do momento na vida deste homem de palavras. Estes cinquenta e três minutos de
memória viva de um homem que escreve a partir da sua janela devolve-nos aquilo que é mais pungente e telúrico
num homem que gostava de sentir-se mais um entre iguais, podendo nós agora
imaginar o escritor com o seu cachimbo na sua Calheta de Nesquim olhando o mar
com os seus conterrâneos e antigos baleeiros. O filme é narrado em francês pela
voz de Marc Weymuller, que alterna em português com Michel Costa que vai lendo excertos de “A
Poeira do Caminho”, acentuando a cadência do texto num registo de vozes lentas
sobre as imagens do “habitat do escritor” – trabalho aprimorado de Xavier
Arpino – reforçando a solidão e a melancolia ali presentes, ampliando à literatura a vastidão da
paisagem que se avista da janela da casa de Dias de Melo. No final da sessão do cineclube de Ponta
Delgada foram lidos testemunhos de familiares e amigos, destacando-se o
tributo de Bruno da Ponte, editor de vinte uma obras do autor picaroto.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
domingo, 15 de dezembro de 2013
Três Poemas de Fernando Machado Silva
O amor não tem tempo
para a traição
Diz tens a palavra não tenhas
medo deste
pequeno monstro
teu par. O
que para ele foi feito
Há muito
acabou a esperança
está na
ponta do cigarro que se esfuma
diz vem cá a
tua mão cabe
na sua ela
sabe adaptar-se
e pode
guardar até ao dia
que a
largares o que quiseres
diz chora ao
leito todo o seu corpo
A tristeza a
vergonha da morte.
Ele vai
estar só aí só à quarta parte
e de novo
volta. Sempre.
Mas diz que
do silêncio
dele e dos
outros
já está
cansado.
A Infância que não foi tua
Mundo de
aventuras
de leituras
desenfreadas
em luta
contra o tédio
das doenças
de cama
na segunda
infância
essa em que
a imaginação
se torna o
vulcão de toda a solidão
não foram
amigos teus os cavaleiros
da távola da
triste figura (catorze anos
separam a
mudança das feições como hoje
tantas vezes
a boca da gôndola
se arqueia
no teu rosto de lua cheia).
Nada disso
foi teu:
tiro aos
pássaros
saqueamentos
a árvores de fruto
mergulhos
suicidas de rochas
ou de
chaminés de barcos
destroçados.
o medo e o amor
sempre te
impediram os altos voos
de Ícaro. não
és melhor
nem pior
pessoa por falta
dessas
memórias e não choras
pela
infância que não foi tua
uma história saturada
de mortos
eu agora
trinta anos fumo bebo
rodeado de
toda a tecnologia do homem
assusto-me
com um grito de uma perdiz
ali fora na
seara alentejana. Insones
os pássaros
cantam pelas noites e dias
e choro
neste verso
avesso por um verso
um filho
qualquer que seja o seu sexo
mas não aqui
connosco nós
não temos
senão a morte
ao deitar
Fernando Machado Silva,
in “Passageiros Clandestinos”, Companhia das Ilhas (2012)
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Na Travessa com Artistas...

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
"Meu Pescador, Meu Velho" de Amaya Sumpsi
Amaya Sumpsi é uma madrilena que o
acaso atirou para os Açores e mais concretamente para ilha de São Miguel.
Licenciada em Realização de Cinema e Televisão pela Escuela Superior de Artes y
Espectáculos vem viver para Ponta Delgada em 2002 enquanto membro das Criações
Periféricas, responsável pelo laboratório de fotografia e na organização de
eventos. Este documentário “Meu Pescador, Meu Velho” é, sem qualquer dúvida, um
olhar afortunado e deslumbrado pelos pescadores de Porto Formoso, uma visão de alguém que
gostou de aqui chegar e descobrir-se nessa aproximação que agora pode ser vista
por quem quiser. À semelhança do escritor Raul Brandão, que há noventa anos se deixou
apaixonar pela paisagem açoriana, Amaya Sumpsi enamorou-se pela baía e, sobretudo,
pelas gentes de Porto Formoso. A história do filme - com uma fotografia cuidada e uma música atinente - abre com o início do projecto
e em que, após uma noite de Carnaval de 2005, uma enorme onda desfez os “boca
aberta” do mestre Eiró e do mestre Américo. Estranhamente, com ajudas
institucionais gera-se a construção de novas embarcações e maiores, no
entanto o porto de areia é residual e impróprio para varar os barcos. Os
pescadores passaram assim a reivindicar uma doca em cimento para que a sua
chegada fosse possível nas melhores condições, gerando alguma contestação entre
os moradores que acreditam que a beleza natural do porto e as ruínas do castelo
que ali se encontram são o verdadeiro foco de beleza e atracção turística do
lugar. A realização do documentário apanha as várias fases da construção do porto e capta assim a passagem do tempo e o que se foi alterando com os diferentes intervenientes no processo.
“Meu Pescador, Meu Velho” é um belíssimo
fresco para compreender o sentido álgico das gentes do mar de Porto Formoso da Ilha de São Miguel e uma pertinente
lição de como se consegue, pode e se deve filmar rente às pessoas que não
conhecemos e que nos podem dizer e contar tanto sobre a vida e sobre a
realidade social em que vivemos. Inesperado é aquele o diálogo entre o velho e
o jovem pescador que daria uma importante tese de mestrado sobre o património material da humanidade e a sua relação com a vida das comunidades.
Amaya sentiu aqui o apelo de deixar a conversar correr, fluir, pois ao
constatar que é afinal o jovem que está do lado do património (as ruínas, neste
caso) ganha em perspectiva e agiganta este seu empenho, esforço e dedicação aos
seus sete anos de existência confinados à feitura deste documentário. Felizmente, o
Teatro Micaelense encontrava-se preenchido para assistir à apresentação deste riquíssimo
e valioso trabalho documental que teve o mais que devido reconhecimento e as devidas loas e agradecimentos.
Três poemas de Rui Duarte Rodrigues
Teresa nome triste
Há silvas e amoras
no teu olhar
pelos teus lábios passou já uma vindima
E há uma tristeza grande
abatida sobre o teu rosto
falas de coisas cansadas em voz baixa
como se o inverno não acabasse
e a miséria não tivesse fim
fico ao lado de ti sem saber
remando com cuidado por entre estrelas
para não dissipar a noite
e o mais breve sinal de alegria
Coração Menino
Tenho
Um coração menino, um coração
pra chorar sozinho
Gastei o coração nestas pedras húmidas
e os olhos deixaram de ver o mar,
fecharam-se numa casa pra morrer
Preciso um mergulho profundo
e prolongado, um lugar de ternura
mãe
dentro da manhã
contra
o medo e a loucura
Mui
açoriana manhã
Ah esta mui açoriana manhã
De prata embaciada, à espera de chuva
Pequeno véu de azul no horizonte
vela fugitiva
Respiro fundo
Que rumo dar às coisas desse dia
Que apenas promete agastamento? Os olhos
querem fechar-se à luz diluída
e prematura
a vontade é dispensar o calendário
Ah esta mui açoriana manhã
Serra mecânica, operária
cortando o ar, fanfarra militar (que dia
é este
que contém alguma celebridade?)
ruídos todos embrulhados nesta película
deslavada, pastel sem brilho
à espera de chuva
Há silvas e amoras
no teu olhar
pelos teus lábios passou já uma vindima
E há uma tristeza grande
abatida sobre o teu rosto
falas de coisas cansadas em voz baixa
como se o inverno não acabasse
e a miséria não tivesse fim
fico ao lado de ti sem saber
remando com cuidado por entre estrelas
para não dissipar a noite
e o mais breve sinal de alegria
Coração Menino
Tenho
Um coração menino, um coração
pra chorar sozinho
Gastei o coração nestas pedras húmidas
e os olhos deixaram de ver o mar,
fecharam-se numa casa pra morrer
dentro da manhã
Um fio,
um cabelocontra
o medo e a loucura
Ah esta mui açoriana manhã
De prata embaciada, à espera de chuva
Pequeno véu de azul no horizonte
vela fugitiva
Respiro fundo
Que rumo dar às coisas desse dia
Que apenas promete agastamento? Os olhos
querem fechar-se à luz diluída
e prematura
a vontade é dispensar o calendário
Ah esta mui açoriana manhã
Serra mecânica, operária
cortando o ar, fanfarra militar (que dia
é este
que contém alguma celebridade?)
ruídos todos embrulhados nesta película
deslavada, pastel sem brilho
à espera de chuva
Rui
Duarte Rodrigues,
in “Com Segredos e Silêncios”, Colecção Ínsula, 1994
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Uma Missiva para os Alpes
Estimado Janeiro
Alves,
Escrevo para
lhe contar que tenho vivido dias intensos e felizes no Solar dos Manaias muito embora não
deixe de pensar que a sua carta é reveladora de tempos sombrios e tenebrosos deste
presente que nos encontramos a viver. A seu tempo tenciono contar ao mundo os
planos de Vivaldo Manaia – tremo só de pensar nas revelações - e gostaria muito
que Janeiro Alves se deslocasse até este pequeno paraíso e desfrutasse connosco
das muitas maravilhas a que a vida nos tem vindo a presentear e surpreender. Começo por
falar-lhe desta ilha que, para lá da descoberta diária de tantos recantos
naturais que me levam do fascínio ao arrepio, quase sobrenatural, deixo-me
encantar por estas ruas do seu centro histórico, ainda que muito pouco habitado com casas degradadas. Por vezes e,
ainda resquícios da minha boémia estudantil, desapareço durante alguns dias e
nem a a minha mais recente amiga sabe do meu paradeiro. Aproveito, no entanto, para
referir que tenho usufruído e fruído com alegria estes dias com a mais
intelectual e filósofa dos Manaias: a Miriam. Para minha surpresa, esta encontra-se a
escrever um ensaio filosófico intitulado “Prolegómenos de Querença e da
Pertença Tardia” ao mesmo tempo que se deixa acompanhar por um caderno de
apontamentos onde esboça o seu próximo romance, que conta para já com o título
provisório: “Areópagos de Bruma”. São também muito invulgares os serões literários que esta organiza em torno de um
livro, de um poeta, de um filósofo, ou até mesmo de um dramaturgo. A casa e a
mesa da sala de jantar enche-se de amigos e literatos para conversar sobre as obras
em questão e degustar as delícias gastronómicas e etílicas que cada conviva
transporta para o serão. Na última sessão, acabei por ler um poema de Óscar
Manaia, o mais desbragado, hábil e viril dos Manos Manaia, pressentindo na minha anfitriã uma
luminosidade e súbita humidade nos seus olhos de cor de amêndoa. O poema tinha
somente estes versos: “Agora que já não
te visito nem te avisto/ Tão pouco te enfrento ou te afago/ Fico longas horas
assustado/ Ao teu convite destemido/ Respondo de modo desgostoso e cansado.” De
qualquer modo, estou deveras impressionado pela cultura e classe de Miriam
Manaia, fascinado sobretudo pela sua pulsão epistemofílica, o que me obriga por
vezes a dar o meu melhor. Neste último sábado, a Miriam e eu, saímos bem cedo
pela manhã para assistir ao nascer do dia assim que caía uma chuva medieval com
nuvens negras que carregavam água sobre nós e eis que, subitamente, ficamos os
dois especados no centro da rua do Colégio a absorver aquele instante, num
misto de céu azul a despontar à espera que as nuvens negras passassem. Miriam
tem no entanto consciência que quando eu me afastar do solar ela irá sentir
saudades das noites e dos serões passados em conjunto. Por isso, decidi
prolongar a minha estadia junto desta. Infelizmente, Miriam não partilha do meu
mirífico entusiasmo à volta da rua do Colégio, desconfiando inclusive da sua
genuinidade. Afirma mesmo que exagero e que aquilo que digo é digno de um jovem
poeta, excêntrico e com poucos livros publicados.
O amigo
Janeiro Alves que me perdoe estas confidências mas como deve compreender estava
a precisar de desabafar com alguém para lá do clã Manaia, por outro lado entrei numa fase da minha vida em que
já não tenho nada a esconder ou mesmo a perder.
Com a minha
profunda amizade,
Mara, Doutor.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Uma Missiva no Dealbar de Dezembro
Alpes, 4 de Dezembro de 2013
Caro Doutor Mara,
Ultrapassados os incidentes descritos na carta
antecedente, encontro-me agora em convalescença num casebre isolado nas
montanhas, que julgo não ser tão tenebroso como o imagino. E porque quando
estamos descontentes com o mundo, estamo-lo sobretudo com nós próprios, forcei-me
a um miserável isolamento para reflectir sobre acontecimentos. Encontrei porém
nos últimos tempos uma escapatória através dos filmes. O cinema é um terraço com
vista para o mundo, dá-nos instrumentos para manusearmos o lado fantasioso que
nos habita, adormecido pelos atropelos da vida real. O problema é quando o
cinema é real, como perceberá mais à frente.
O dia ontem foi de tempestade com neve, frio,
relâmpagos, trovões e o mundo a desabar à minha volta. Perante esta espécie de
holocausto, acendi a lareira, meti a tocar um disco de Vítor Espadinha,
servi-me de Macieira, e pus-me a ver material de família. Comecei por um
conjunto de fotografias antigas. Raramente as vejo e mostrá-las nem pensar,
pois como sabe tenho uma família de trogloditas, todos eles com caras
assustadoras. As minhas irmãs são horrendas e cadavéricas, por isso nunca
casaram, e já nem recebem visitas em casa. Quando eu era pequeno, no quarto dos
meus pais ouviam-se sempre gritos de manhã, quando acordavam e olhavam um para
o outro, e eu quando nasci e olhei para eles, chorei durante um mês sem parar.
Os meus tios eram todos iguais ao corcunda de Notre-Dame depois de um banho em
ácido sulfúrico. Os meus primos são uma abstracção da natureza. Têm a cara
cheia de borbulhas, os dentes encavalitados e saídos ao nível do nariz, reles
bigodes de meios pelos, caras ovais e disformes pelas quais escorrem fios de
azeite virgem, e os que ainda têm cabelo apresentam um tufo de pelos ríspido
como um esfregão de palha de aço em forma de ninho. São assim os meus primos.
As minhas primas são iguais, mas com patilhas, e uma delas tem mamas. Enfim meu
caro Mara, não me querendo estender, um autêntico freak show. Felizmente eu sou
o desvio à norma.
Mas voltando ao dia de ontem e a minha alusão
inicial ao cinema: A minha família, como sabe, sempre teve dificuldades em se
relacionar socialmente com outras famílias, pelo sentimento de repulsa que
causavam. Por esta razão sempre se dedicaram a actividades caseiras, em clã.
Era uma família unida pela feiura. Na década de 60, uma das actividades do meu
pai e dos seus irmãos, então conhecidos como os “Irmãos Lumiar”, era o cinema.
Filmavam e construíam enredos à volta de coisas simples e quotidianas, pois não
se podiam afastar muito de casa. Descobri algumas dessas fitas, e trouxe-as
comigo desde Vale Escabroso, a terra da minha família, para as visualizar estes
dias. Descobri coisas impressionantes em filmagens caseiras. Mas a que mais lhe
interessará, caro M, trato de descrever: Numa das fitas, há uma festa na nossa
casa de família. Neste cenário tenebroso de grande alegria, observo no fundo da
sala, o meu pai Agripino Alves, ainda solteiro na altura, num cenário de aceso
romance com Violinda Manaia, a mais feia dos Manaias, filha do tenente coronel
Augusto Manaia, e meia irmã de Vivaldo. São filmagens factuais, em formato
documentário, e portanto reais. Depois de recorrer ao melhor grau de raciocínio,
cheguei à conclusão que Faustino Manaia poderá ser meu meio irmão, tendo em
conta a sua idade, e as notórias parecenças comigo. Sempre ouvi dizer que eu
era a sua cara chapada, mas em versão bonita. E as peças encaixam-se, caro
Mara. Estou em estado de choque, pois esta revelação, a confirmar-se, poderá
deitar por terra toda a minha reputação.
Por
fim, e enquanto aguardo novidades do plano de Vivaldo por intermédio da sua
pessoa, informo-o que lhe enviei um pequeno presente pelo correio. Uma embalagem
com os melhores filetes de peixe alpinos, que concerteza farão as suas delícias
nestas noites frias de inverno, e que se não forem comidos com alarvidade, poderão
chegar até ao Natal.
Um fraterno abraço,
Janeiro Alves
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
O Aprendiz de Feiticeiro por Tiago Rosas
![]() |
| Zeca Medeiros (Foto Tiago Rodrigues) |
O
jovem realizador Tiago Rosas concebeu um documentário sobre a obra de Zeca
Medeiros. Este objecto fílmico tem o curioso título de «Aprendiz de Feiticeiro» e
trata-se de uma resenha do imaginário de Zeca Medeiros: realizador, actor,
compositor, cantor e responsável por muita da música açoriana de
referência que hoje ouvimos e que, podemos arriscar-nos a dizê-lo sem temor,
permanecerá por muitos anos na nossa memória colectiva. Tiago Rosas oferece-nos
o legado de forma temporal, mais de duas décadas de autoria, e que vai desde a
série “Memórias do Vale", rodada em 1985, até ao mais recente espectáculo de “As Sete Viagens
de Jeremias Garajau”, passando obviamente pelos telefilmes "Mau Tempo no Canal", “Xailes Negros”, “Balada
do Atlântico", "O Barco e o Sonho", "O Feiticeiro do
Vento", "A Ilha de Arlequim", "O Sorriso da Lua nas
Criptomérias" ou a adaptação de “Gente Feliz com Lágrimas", do
escritor micaelense João de Melo. Zeca Medeiros conseguiu – com a ajuda da RTP
Açores e dos seus profissionais – criar um “fado insulano” carregado de espelhos
e de reflexos que ressoam e povoam de forma indelével a cultura açoriana
contemporânea. É ainda surpreendente, na parte final deste trabalho, o desfilar
das suas actrizes e ainda o rol e a exposição do seu percurso
interpretativo enquanto actor através de excertos dos seus filmes.
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